Afinal o que é isto do crowd publishing?

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A tendência do crowdfunding deu um novo fôlego ao mercado literário, influenciando o aparecimento de novos autores e de clássicos nunca antes publicados em Portugal. E assim nasceu o crowd publishing.

Nem sempre os livros que queremos ler são aqueles que encontramos nas livrarias. Desde que as ideias surgem na cabeça do autor até ao momento em que nos chegam às mãos, as histórias passam por um processo longo e demorado que nem sempre acaba nas estantes das livrarias. Os custos implicados na publicação de um livro são elevados e nem todos os autores conseguem alcançar o apoio dos grandes grupos editoriais, ou mesmo de pequenas editoras.

O crowdfunding, uma nova tendência mundial responsável pela concretização de negócios e ideias, parece ser a solução ideal para colocar nas mãos dos leitores a responsabilidade de decidirem aquilo que deve ou não ser publicado. Embora possa parecer complicado, este processo é até bastante simples. Partindo de uma lógica de financiamento público, toda a comunidade é convidada a escolher os projetos culturais, empresariais ou sociais que merecem ser apoiados. O investimento, através de doações voluntárias, é depois recompensado consoante o montante oferecido. O principal objetivo é dar vida às ideias que de outra forma ficariam guardadas no fundo de uma gaveta.

Embora se tenha começado a fazer notar globalmente entre 2003 e 2005, devido à divulgação proporcionada através da Internet e das redes sociais, esta tendência não é nova. Já no final do século XVIII e início do século XIX haviam surgido vários projetos baseados em investimentos públicos. A própria Estátua da Liberdade foi construída através das doações de 160 mil voluntários.

Mas afinal como é que tudo isto se aplica aos livros? O processo é fácil. Através de plataformas on-line, os autores apresentam as suas ideias e os livros que pretendem publicar, apelando ao apoio dos seus leitores e da restante comunidade literária para conseguirem alcançar a verba mínima pretendida. Mas os benefícios desta tendência não se ficam por aqui. Ao contrário do que acontece em editoras tradicionais, onde a escolha das obras fica condicionada, aqui o foco está na opinião dos leitores. Quem lê é que escolhe aquilo que quer ler e ver publicado. Desde grandes clássicos da literatura até novos autores e livros inovadores, tudo é válido nestas plataformas de crowd publishing – apoio público à publicação de livros.

NOVAS IDEIAS QUE SALTAM PARA AS ESTANTES

Em Portugal, o crowd publishing tem vindo a ser cada vez mais desenvolvido. Para fugir à centralização do mercado em grandes grupos editoriais, João Batista e Nádia Amante fundaram, em 2012, a Livros de Ontem. “Percebi que o mercado editorial em Portugal está mais orientado para a compra de direitos autorais de bestsellers internacionais e que os canais de captação de novos talentos de língua portuguesa são praticamente inexistentes”, explica João Batista.

A Livros de Ontem foi a primeira editora a utilizar este processo em Portugal. A sua aposta esteve sempre focada no lançamento de novos autores e em proporcionar oportunidades a quem não consegue chegar ao mercado livreiro. “Marcamos a diferença pela qualidade dos nossos livros, tanto ao nível do conteúdo das obras como do design e dos materiais utilizados. Temos um conceito de luxo e uma grande atenção ao detalhe”, sublinha João Batista. Os livros são tratados como sendo obras únicas e independentes, dando destaque aos autores e às opiniões dos leitores em relação a cada publicação. “Quando um leitor encontra um livro da Livros de Ontem sabe que irá ler uma obra de qualidade e que estará a apoiar a carreira de um novo autor de língua portuguesa”, remata o fundador da editora.

Com vários prémios já alcançados e um leque de autores e livros bastante considerável, a Livros de Ontem pretende chegar a cada vez mais leitores, reforçando a sua presença quer no mercado on-line de crowd publishing, quer nas livrarias nacionais.

UMA NOVA VIDA PARA OS VELHOS CLÁSSICOS

Mas esta nova tendência de publicação de livros não se resume aos novos rostos da escrita. Também os grandes clássicos da literatura mundial merecem novas oportunidades através do crowd publishing. Em 2015, Hugo Xavier, Pedro Bernardo e João Reis criavam a E-Primatur, de maneira a colmatar uma lacuna que os próprios identificaram no mercado editorial português: “Uma total ausência de livros de referência base”, referiram à revista Estante em 2015.

A edição de obras que marcaram e continuam a marcar gerações mas que, por algum motivo, nunca chegaram a Portugal é o grande objetivo da E-Primatur. “Mais do que limitar a um conceito de clássicos, queremos ter como linha obras que marcaram de alguma forma, independentemente da época”, referiu Hugo Xavier na mesma entrevista. Realçou ainda que esta não é uma editora fechada a gostos ou critérios rígidos, deixando espaço para que a comunidade de leitores possa gradualmente fazer sugestões.

Mais uma vez, a responsabilidade de escolher aquilo que será publicado fica nas mãos dos leitores que, através das redes sociais, divulgam e apoiam a promoção da literatura. Feitas as contas, o crowd publishing parece ser cada vez mais uma aposta com futuro e uma forma democrática e aberta de fazer com que a literatura possa chegar a todos, eliminando o fosso que ainda separa os escritores daqueles que leem os seus livros.

UM CASO DE SUCESSO

Desengane-se quem pensa que o crowd publishing está restrito a editoras. Em 2013, o livro de banda desenhada As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy Volume 3, de Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa, foi notícia por terem sido os próprios autores a arrecadarem o financiamento por conta própria. Apesar de ser o último volume de uma trilogia de sucesso, os autores não conseguiam suportar todos os custos que a edição acarretava. Assim, pela primeira vez, decidiram recorrer a uma plataforma de crowdfunding onde divulgaram este vídeo.

O sucesso foi quase imediato. Mesmo antes do final do prazo estipulado pelos autores, já a quantia pedida tinha sido coberta por mais de 200 apoiantes. O objetivo estava fixado em quatro mil euros, mas o montante angariado chegou mesmo a ultrapassar os 6 600 €. Com os fundos que sobraram da campanha, os autores fizeram um segundo vídeo, que rapidamente se tornou viral nas redes sociais.

Num comunicado, Filipe Melo afirma: “[O crowdfunding é] uma ótima maneira de juntar os autores aos leitores. É uma relação mais direta, e que tem uma percentagem muito maior dedicada à produção do livro do que à distribuição.” Mais do que conseguir o montante desejado, esta experiência permitiu aos autores terem uma melhor perceção do impacto que os seus livros conseguiam ter junto do público. “É graças a vocês, que leram os nossos livros e que confiaram em nós, que o terceiro livro vai existir”, escreveram os autores em jeito de agradecimento a todos os que contribuíram para que estas aventuras ganhassem forma.


6 LIVROS PUBLICADOS ATRAVÉS DE CROWDFUNDING


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Tempos Difíceis
Charles Dickens
E-Primatur

Um clássico da literatura que retrata a Inglaterra durante a Revolução Industrial através das histórias de vida dos seus habitantes e dos fortes contrastes sociais que marcaram a sociedade daquela época.

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Pena Máxima
Álvaro Cordeiro
Livros de Ontem

O segundo livro de Álvaro Cordeiro é uma novela intrigante, carregada de mistérios e acusações. Uma teia de divagações sobre o papel do Homem e a tomada de consciência sobre aquilo que somos realmente.

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O Salão Vermelho
August Strindberg
E-Primatur

Pela mão do protagonista, Arvid Falk, o pai da literatura moderna escandinava leva-nos a um espaço único onde o lado corrupto da política se cruza perigosamente com as veias mais intelectuais e boémias da sociedade escandinava.


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Emergente – Novos Poetas Lusófonos
Samuel Pimenta
Livros de Ontem

Um livro que dá voz a 12 novos rostos da poesia lusófona. Sob a coordenação de Samuel Pimenta – autor lançado pela Livros de Ontem –, esta antologia reúne textos de poetas de Portugal, Brasil, Angola e Galiza.

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Avelina, Criada Para Todo o Çerviço
José Vilhena
E-Primatur

Os diários de Avelina são muito mais do que pequenos desabafos. São o retrato chocante e arrojado do Portugal de outros tempos. Um livro que coloca a nu a vida do proletariado feminino na década de 1970.

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Street Food & Food Trucks
João Batista
Livros de Ontem

O livro ideal para quem quer apostar num novo negócio. Este livro dá-te todas as dicas e conselhos necessários para tirares partido de um investimento na indústria de comida de rua.


Por: Andreia Vaz

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