“O grande desafio de uma editora é manter vivos os seus livros.”
Abysmo: como no antigo acordo. A editora de João Paulo Cotrim nasceu em 2011, no abysmo da crise económica. Mas isso, sublinha o fundador, é o que menos importa.
A Reforma Ortográfica de 1911 deixou cair o y. A palavra abysmo passou a abismo. Na altura, o escritor Teixeira de Pascoaes, revoltado com a alteração, escreveu: “Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério…Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.” Quando João Paulo Cotrim decidiu aventurar-se e fundar a sua editora, discutia-se o novo Acordo Ortográfico. E, à memória do ex-jornalista, chegou a frase de Pascoaes. Pensou que, mais do que desrespeitar o novo acordo, deveria era desrespeitar o vigente. E assim nasce a editora Abysmo. Com y.
A frase de Pascoaes acompanha todas as fichas técnicas dos livros editados pela Abysmo. Os logótipos, contrariando o que os entendidos do marketing defendem, são diferentes de livro para livro. “Já é uma imagem de marca. O facto de termos uma identidade plural faz mesmo com que cada ilustrador apresente já quatro ou cinco alternativas para cada novo livro”, explica Cotrim.
O DESAFIO DAS PEQUENAS EDITORAS
Quando se fala de retoma económica, João Paulo Cotrim é cético e ironiza.“Ainda não a sentimos. Também nos interessava que fosse verdade. Mas a retoma é exatamente como haver sol: se aparecer é mais fácil, mas com chuva trabalhamos na mesma.” A Abysmo sente-se esmagada pelas grandes editoras? A resposta é não. “O nosso trabalho é ‘apesar das grandes editoras’. O maior desafio está relacionado com as livrarias: “deu-se uma perversão do mercado do livro e, de repente, todos são tratados como best sellers. Se não forem, não se sabe bem o que fazer com eles e ao fim de dois meses já estão mortos.” E aqui surge a dificuldade: a Abysmo edita long sellers,obras que vendem pouco mas vendem sempre e, por isso, precisam de estar continuadamente expostas. “Se, ao fim de dois meses, as livrarias acham que o livro já não é novidade e não tem interesse, torna-se complicado. Este é o grande desafi o com que uma pequena editora tem de lidar: manter vivos os seus livros.”
NOVOS PROJETOS
O futuro? A Abysmo quer entrar numa velocidade de cruzeiro que permita a edição de dois livros por mês. “A nossa intenção não é crescer muito. É mais engordar” revela João Paulo Cotrim. Com 22 obras já editadas, Cotrim levanta o véu relativamente aos próximos meses: dois projetos associados aos 40 anos do 25 de abril, reforço na área da poesia, novos autores de romance, publicação de contos e obras completas de José Cardoso Pires e Fernanda Botelho.
“A Abysmo edita long sellers, obras que vendem pouco, mas vendem sempre!”
JOÃO PAULO COTRIM
O fundador da Abysmo nasceu em Lisboa em 1965. Foi coordenador editorial da revista Ler, editor de ficção e ensaio da Ícon, e ainda crítico de livros no jornal Expresso e de banda desenhada na revista Magazine Artes.
Dirigiu desde a sua abertura até 2002, a Bedeteca de lisboa e é autor de Mar de Tinta, incluído no Catálogo oficial do pavilhão dos oceanos da Expo’98. Assinou ainda a Narrativa do Sséculo – Dois ou três apontamentos sobre a viagem da banda desenhada pelo século xx” incluída em A Arte no Século XX.
TOP 3| Abysmo
um folhetim publicado durante o Verão quente de 2001.
Autores: João Paulo Cotrim e António Cabrita

as letras das músicas de sérgio godinho em ilustrações para assinalar os 40 anos de carreira do músico.
Vários autores

a poesia de Rui Baião, acompanhada de gravuras de thierry simões
Autores: Rui Baião e Thierry Simões.

Pitágoras assertivo
A carícia da água
da cisterna com a Lua.
Perde a Lua a noite;
o vidro o reflexo
da janela alta, menos que os astros.
O bronze do batente,
escondido sob a sombra
da porta antes de aberta.
in “Os dedos escribas”
de António Guiomar