A tendência de romancear a história

O que faz do romance histórico um dos mais populares géneros literários da atualidade?

Não existe uma definição unânime de romance histórico. Se, por um lado, alguns teóricos da literatura apresentam a ideia de que, de modo a poder ser considerado histórico, um romance deve necessariamente ter sido escrito pelo menos cinquenta anos após os eventos nele descritos, para outros este período parece encurtar ou aumentar. A regra base parece, no entanto, ser clara: o escritor não deve ter vivenciado os acontecimentos que descreve e a obra deve ser fruto de um trabalho de pesquisa e não de experiência pessoal.

Será talvez este princípio que atrai um público cada vez mais alargado, ajudando o género a atingir uma popularidade notável. A procura por reconstituições históricas fiéis, trabalhadas até aos mais ínfimos pormenores, bem como a importância atribuída à factualidade dos acontecimentos narrados, é algo que distingue o género desde os seus primórdios. No entanto, os romances históricos não implicam uma utilização exclusiva de factos e eventos reais, existindo sempre algum espaço de manobra para o uso de dispositivos de ficção.

Como podemos, então, definir os romances históricos? O que os distingue das restantes obras de ficção?

Factos e ficção: uma conjugação harmoniosa 

Um dos primeiros romances históricos, A Princesa de Clèves, escrito no século XVII por Madame de La Fayette, é um exemplo de empenho na pesquisa documental e na factualidade dos acontecimentos, recreando com grande precisão a vida na corte de Henrique II de França.

No entanto, como o próprio nome do género sugere, o ênfase na dimensão factual não impede alguma liberdade criativa na apresentação das narrativas. Ivanhoe, romance de Walter Scott sobre as lutas entre os povos normandos e saxões em Inglaterra, foi responsável pela popularização do género no século XIX – é, no entanto, reconhecida a despreocupação do autor com certos pormenores históricos. Mais recentemente, Os Pilares da Terra, bestseller de Ken Follett sobre a construção de uma catedral numa cidade de Inglaterra, foi elogiado pelo retrato construído da sociedade medieval mas criticado por várias inexatidões históricas.

Embora focado na era do Império Romano, também Eu, Cláudio, romance escrito por Robert Graves na forma de uma autobiografia do Imperador Cláudio, depende da ficcionalização e da alteração de determinados pormenores para desenrolar a narrativa e cativar a atenção do leitor. Guerra e Paz, de Lev Tolstói, é outro exemplo que utiliza um acontecimento real (as invasões napoleónicas na Rússia) para retratar a vida da aristocracia deste país, combinando harmoniosamente realidade e ficção. O eventual romancear da História é, então, acolhido naturalmente, para ajudar a narrativa e a identificação dos leitores com a obra.

Um género aberto a outros

O romance histórico é um género literário aberto, na medida em que possibilita a utilização de mecanismos habitualmente associados a outros géneros.

Existem vários exemplos de obras que se movem entre géneros. Um dos mais evidentes é também um dos mais conhecidos romances históricos do século XX: O Nome da Rosa. O livro de Umberto Eco utiliza um mosteiro em Itália no século XIV como pano de fundo de uma das histórias de mistério mais célebres da literatura.

O romance histórico também pode ser utilizado como crítica social. Memorial do Convento, livro de José Saramago sobre a construção do Convento de Mafra, utiliza linhas narrativas claramente ficcionais (como as da relação entre Baltasar e Blimunda ou da construção da “Passarola”) paralelas à história do convento e da corte de modo a proporcionar um relato das vicissitudes da corte portuguesa e da dura realidade da vida fora desta.

O apelo das vidas privadas

Os romances históricos contemporâneos são fortemente influenciados pela curiosidade associada a personalidades que marcaram a nossa história e cultura. Um exemplo é Duas Irmãs, Um Rei, romance de Philippa Gregory sobre as duas irmãs Bolena, ilustrativo do fascínio que a vida privada de figuras históricas pode exercer sobre o público.

No panorama português, Isabel Stilwell é talvez a autora mais reconhecida pelo público nacional. As suas obras, entre as quais se encontram D. Teresa ou Filipa de Lencastre – A Rainha que Mudou Portugal, focam-se principalmente em figuras femininas cuja influência na história e no imaginário português é inequívoca.

Também a obra de Tiago Rebelo, maioritariamente focada na vida nas ex-colónias portuguesas em África, está presente em livros como O Tempo dos Amores Perfeitos e O Último Ano em Luanda. É uma das principais figuras do género em Portugal.

Fugindo a relatos excessivamente fantásticos, o romance histórico proporciona uma forma de imersão no passado ao mesmo tempo que oferece um escape do quotidiano. A História é contada através de histórias que, verdadeiras ou parcialmente fabricadas, nos ajudam a contextualizar e a compreender a realidade em que estamos inseridos.


Por: Inês Melo

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