A Quinta dos Animais: como George Orwell escreveu uma das suas principais distopias

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Foi há 70 anos que George Orwell publicou uma das mais influentes e emblemáticas novelas da literatura mundial. É esta a história d’A Quinta dos Animais.

Os 7 mandamentos
(originais) do Animalismo

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo;
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas ou tenha asas é amigo;
3. Nenhum animal usará roupas;
4. Nenhum animal dormirá em camas;
5. Nenhum animal beberá álcool;
6. Nenhum animal matará outro animal;
7. Todos os animais são iguais.

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A Quinta dos Animais

George Orwell
A história acompanha a revolta de um grupo de animais, chefiados por porcos, contra os humanos que os exploram.

Com o deflagrar da Guerra Civil Espanhola, Eric Arthur Blair – ou George Orwell, pseudónimo pelo qual é conhecido – decide partir para Espanha e juntar-se a um movimento de revolucionários marxistas, na esperança de evitar que as forças nacionalistas apoiadas pelas principais ditaduras fascistas da Europa conquistem o poder no país. No entanto, para sua surpresa, quando em 1937 as forças comunistas suportadas pela União Soviética sobem momentaneamente ao poder, ordenam a perseguição e repressão das diversas milícias de Extrema Esquerda que os apoiam, entre as quais aquela a que pertence.

Orwell consegue, a custo, escapar do país. Muitos dos seus companheiros não têm tanta sorte. São presos e executados, acusados de conspirações fascistas que o autor sabe serem falsas. “Experimentar tudo isto foi uma valiosa lição”, recorda mais tarde. “Ensinou-me quão facilmente pode a propaganda totalitária controlar a opinião de pessoas inteligentes em países democráticos.”

Assume, a partir daí, o objetivo de denunciar ao mundo a hipocrisia do regime soviético, que acredita esconder uma ditadura cruel por trás de um aparente socialismo. Persegue, nas suas próprias palavras, “a destruição do mito soviético”. Como não podia deixar de ser, escolhe a escrita como arma de eleição.

A ideia apresenta-se-lhe quando, um dia, observa um jovem rapaz a conduzir uma carroça e a chicotear o cavalo nela preso sempre que este tenta mudar de direção. “Pensei que se os animais conhecessem a sua própria força não teríamos qualquer poder sobre eles e que os homens exploram os animais da mesma forma que os ricos exploram o proletariado.” É quanto baste para que comece a planear a alegoria que virá a chamar de A Quinta dos Animais.

A história acompanha a revolta de um grupo de animais, chefiados por porcos, contra os humanos que os exploram. Tomando a quinta à força, formam o Animalismo, um conjunto de princípios que todos devem respeitar e obedecer, o mais importante dos quais o que indica que “todos os animais são iguais”. Isto até que os porcos se deixam seduzir de tal modo pelo poder que passam a ver todos os outros como subalternos.

Orwell termina de escrever A Quinta dos Animais em 1944, mas encontra grandes dificuldades para o publicar. Decorre na altura a Segunda Guerra Mundial e tanto a Grã-Bretanha como os Estados Unidos valorizam a aliança com a União Soviética, pelo que nenhuma editora se atreve a publicar um livro tão evidentemente crítico do regime chefiado por Estaline. Sucedem-se críticas, cartas de rejeição e até ameaças. “O facto mais sinistro da censura literária na Inglaterra é que é amplamente voluntário”, escreve o autor num prefácio sobre a penosa experiência. “As coisas são mantidas fora da imprensa não porque o Governo intervém mas graças a um acordo generalizado de que é melhor não mencionar um determinado facto.”

Apesar da perseverança de Orwell, A Quinta dos Animais só ganha editora quando a relação entre a União Soviética e o Ocidente começa a azedar, mas o início da Guerra Fria transforma-a quase de imediato numa obra de referência, abrindo caminho a outras distopias, entre as quais 1984, do mesmo autor. Não obstante, o inglês recusa até ao fim ver o seu trabalho transformado em propaganda antissoviética: “Claro que a minha intenção foi, em primeiro lugar, satirizar a revolução russa, mas quis que tivesse uma aplicação mais abrangente, na medida em que me parece que aquele tipo de revolução, uma conspiração violenta liderada por pessoas famintas por poder, apenas pode conduzir a uma mudança de mestres”.

 


Por: Tiago Matos

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