A Morte de Ivan Ilitch

lev-tolstoi-escritor

“Leo Tolstoy seated” por F. W. Taylor via Wikimedia Commons

Originalmente publicada em 1886, a novela em que Lev Tolstoi explora os seus próprios medos e considerações sobre a morte é hoje um dos grandes clássicos da literatura mundial.

livro-a-morte-de-iliitch-lev-tolstoi

A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi, é hoje tida como uma das melhores obras literárias de sempre.

A morte começa a apoquentar Tolstoi quando este tem pouco mais de 50 anos. É um tema que o leva a reconsiderar tanto a religião como os padrões sociais e morais da época. Também se reflete nos textos que escreve, sejam estes ensaios filosóficos ou trabalhos de ficção. A epifania espiritual ilumina-o ao ponto de rejeitar os seus dois mais célebres romances – Guerra e Paz e Anna Karenina – em detrimento de textos que “melhor refletem a verdade”. Surge assim A Morte de Ivan Ilitch, hoje tida como uma das melhores obras literárias de sempre.

O protagonista dá pelo nome de Ivan Ilitch e é um juiz de meia idade, membro do Tribunal de Justiça de São Petersburgo. Confirmando o enunciado no título, é dado como morto logo à primeira página. As restantes servem para perceber quem era, quem o rodeava, como eram banais as suas rotinas e o que o acabou por matar. Mais interessante ainda é acompanhar as reflexões sobre a vida e a morte por parte de um homem que não compreende por que tem de sofrer e que, a certa altura, dá por si a desejar ter tido uma vida bem diferente.

Embora as realidades sejam distintas, há muito de Tolstoi em Ilitch. O autor vive nos seus últimos anos uma existência sufocada pelo próprio sucesso, surgindo aos olhos de muitos “devotos” mais como profeta que como escritor. A mulher reage mal ao aparato, reclamando atenção e fazendo da discussão uma rotina. O ambiente doméstico torna-se insuportável.

Eis que, na madrugada de 28 de outubro de 1910, pressentindo o fim, Tolstoi foge de casa, deixando uma carta à mulher a justificar a decisão: “A minha partida vai causar-te sofrimento. Peço desculpa por isso, mas compreende e acredita que eu não podia agir de forma diferente. A minha posição nesta casa está a tornar-se – já se tornou – intolerável. Além do mais, não consigo continuar a viver no luxo em que tenho vivido. Faço o que os homens da minha idade geralmente fazem: abandono a vida mundana para passar os meus últimos dias em solidão e silêncio. Por favor compreende e não venhas atrás de mim se descobrires onde estou. A tua chegada apenas tornará pior a nossa situação, mas não alterará a minha decisão. Agradeço-te os quarenta e oito honrados anos passados comigo e peço que me perdoes tudo pelo qual posso ser culpado perante ti, assim como te perdoo, com toda a minha alma, qualquer culpa que possas ter para comigo. Aconselho-te a aceitares as novas circunstâncias nas quais a minha partida te deixará e a não teres sentimentos pouco amáveis para comigo”.

É encontrado dias depois, debilitado devido a uma pneumonia, na estação de comboios de Astapovo. Acaba por morrer no dia 7 de novembro. A breve fuga permite-lhe, porém, os últimos momentos de felicidade: a liberdade da aventura, as alegres conversas com estranhos, a contemplação de belas paisagens através da plataforma traseira do comboio. Despede-se, afinal, da vida como Ivan Ilitch mais teria querido: experimentando-a sem amarras.


Por: Tiago Matos

Gostou? Partilhe este artigo: