A literatura em Portugal antes e depois

Várias pérolas literárias foram retiradas das estantes das livrarias nacionais, mas 40 anos após o 25 de abril foram inúmeros os aspetos que mudaram no mundo da literatura.

EM JOGO ESTAVAM, não só as referências políticas escritas pelas mãos dos perseguidos escritores neo-realistas, mas também temas que afetavam a dita “moral e bons costumes”. Livros que foram apreendidos e condenados por parte da sociedade que não via os temas com bons olhos. Portugal era muito rural e tradicionalista. A este cenário juntou-se a autocensura efetuada pelos próprios autores que tinham medo de escrever sobre determinados temas, bloqueando
a sua criatividade.
Hoje assistimos a um panorama completamente distinto, os escritores internacionalizaram- se e estão traduzidos numa série de línguas.

OS TEMAS PROIBIDOS
A educação feminina e masculina, a noção do pecado, a masturbação, o beijo, o namoro, as relações conjugais e extraconjugais, o divórcio, a contraceção e a emancipação feminina, todos eles eram temas proibidos de retratar. Vivia-se um mundo de valores puritanos, opressão e recalcamento, em que às mulheres se impunha uma existência
sexualmente reprimida e aos homens uma performance de mestre.
Segundo contou Ana Hatherly no livro Confissões de Mulheres: “Ser jovem é sempre difícil, mas na sociedade dos anos 50 os jovens sofriam ainda muito com a repressão da família, reflexo da intolerância social de então. A repressão era a todos os níveis, mas é claro que a repressão sexual era a mais dura de todas. Na minha adolescência, a relação entre os jovens e entre todas as pessoas, ou seja, as bases do convívio, eram muito mais falsas, interesseiras e covardes do que hoje. Essa falsidade generalizada e a prepotência dos que detinham o poder – social, moral, sexual – chocavam-me muito.”
Foi devido a esta repressão que o livro As Novas Cartas Portuguesas de Maria Velho da Costa, Isabel Barreno e Maria Teresa Horta foi censurado em 1972. Foi o primeiro livro dirigido à questão feminina e à independência das mulheres e os seus novos direitos. A censura considerou que a obra continha “diversas passagens de conteúdo imoral e pornográfico”. No entanto, o regime estava a ser intérprete da maioria da sociedade que era muito conservadora e também ela censora. “Se ouvissem falar das mulheres com um determinado tipo de prazer sexual benziam-se de alto a baixo. Era pecado. Nos meios universitários e urbanos do Porto, Lisboa e Coimbra as pessoas tinham uma mentalidade mais arejada. Existia uma elite com outro conhecimento mas resumia-se a 20%, pois o país era rural”, contou Fernando Pinto do Amaral, escritor, professor universitário e responsável pelo Plano Nacional de Leitura.
As autoras foram levadas a tribunal por aquela acusação, da qual foram absolvidas depois da revolução de 1974. O livro voltou a ser publicado e teve mais do que uma edição.
Também Natália Correia foi um alvo constante da censura. Tentara iniciar a revolução sexual em Portugal com a sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica publicada e proibida em 1966. “Eram censores puritanos”, desabafou o editor Nelson de Matos que esteve na Arcádia em 1974, passou para a Moraes e seguidamente, após a morte de Snu Abecassis, tornou-se proprietário da editora Dom Quixote, durante 23 anos. Atualmente tem uma editora independente, a Edições Nelson de Matos, onde reeditou Histórias de Amor de José Cardoso Pires, apreendida pela censura em 1952. “Detenho os cortes que a censura fez no livro, e por aí se verifica que não são temas
políticos mas sim de costumes e de conteúdo erótico.”

A AUTOCENSURA DOS ESCRITORES
Apesar de todo o manancial de livros apreendidos, cortados e adulterados, a censura acabou por ser pior do ponto de vista intelectual ao condicionar os escritores no auge da criatividade. Interiorizavam desde logo que não poderiam dizer certas coisas e escrever um romance em Portugal representava na altura uma espécie de suplício. Em entrevista ao Diário de Lisboa a 17 de novembro de 1945 o escritor Ferreira de Castro referiu “Escrever assim é uma verdadeira tortura, porque o mal não está apenas no que a censura proíbe mas também no receio do que ela pode proibir. Cada um de nós coloca, ao escrever, um censor imaginário sobre a mesa de trabalho – e essa invisível, incorpórea presença tira-nos toda a espontaneidade, corta-nos todo o élan, obriga-nos a mascarar o nosso pensamento, quando não a abandoná-lo, sempre com aquela obsessão: ‘eles deixarão passar isto?’”
O 25 de abril veio colmatar este fosso temático e criativo, abrindo as portas a todas as experiências da linguagem. Apesar de tudo “existia uma literatura viva e muito vibrante”, informou Fernando Pinto do Amaral, que acrescentou: “Delfim de José Cardoso Pires é um dos livros que considero dos grandes romances dos anos 60 onde o autor nos mostra o Portugal dos anos 50/60 e faz toda uma crítica ao marialvismo e à mentalidade tradicional portuguesa.”

EXPLOSÃO DE CRIATIVIDADE
Há editoras, como a Europa-América ou a Dom Quixote, que apareceram antes do 25 de abril e que tiveram um papel muito importante. Fundada por Snu Abecassis em 1965, a Dom Quixote transformou-se numa das principais editoras do país apesar dos problemas que teve com a PIDE. Snu publicou textos que contrariavam os ideais do regime, tendo editado, por exemplo, obras sobre a pílula, a guerra do Vietname ou a crise na Igreja.
Outra das editoras foi a Moraes, fundada por António Alçada Baptista, crítico do regime de forma moderada e que procurou mudá-lo por dentro. Tinha uma certa fortuna pessoal que gastou na editora num gesto altruísta. “Deu muito de si à cultura e aos livros de uma forma muito bonita”, contou Fernando Pinto do Amaral.
A Arcádia editava Virgílio Ferreira, José Cardoso Pires e David Mourão Ferreira, e foi com esses autores que Nelson de Matos começou a trabalhar e se apercebeu que em 1974 todos eles falaram dos livros que tinham na gaveta e que não publicavam devido à censura. Apareceram novos livros e autores como António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge ou José Saramago, que só foi descoberto como escritor com o seu primeiro romance Manual de Pintura e Caligrafia, publicado em 1977. Os romances tardaram um pouco a aparecer devido à convulsão política que se viveu logo após o 25 de abril nas fases de 75, 76. Durante essa espécie de explosão “os romances estiveram em crise porque as pessoas escreviam sobre temas mais atuais, ideológicos e políticos. Foram editados vários livros sobre o 25 de abril, movimento dos Capitães de Abril, entre outros”, contou Nelson de Matos. Pouco tempo depois passaram a ser abordadas questões que se prendiam com a sexualidade e a homossexualidade. “Foi nos anos 80 que a poesia
de Al Berto surgiu com mais força. Esse género de temas fraturantes eram muito complicados antes do 25 de abril. Há uma nova geração, muito mais liberta de qualquer convenção e constrangimento, que vai ter outra atitude perante a literatura. São de esquerda e de direita, e já respiram num clima livre”, informou Fernando Pinto do Amaral. Diferenças que também estão relacionadas com a facilidade de viajar, influências da Europa e outro tipo de relações
com o mundo.

A EXPANSÃO DA LITERATURA E DA LEITURA
Editar passou a ser uma atividade muito entusiasmante devido a esta diversidade. Havia autores que publicavam um livro de cinco em cinco anos e que passaram a publicar anualmente. “Apareceram novos leitores e uma nova geração com mais escolaridade, mais desperta e sedenta de literatura. Havia uma procura de livros o que levava os escritores a terem vontade de escrever. Sentiam que havia um público que os lia”, referiu Nelson. Toda esta fase permitiu também uma maior aproximação entre os autores e leitores com os lançamentos dos livros, sessões de autógrafos e a feira do livro, que já existia mas com apenas meia dúzia de stands. Após o 25 de abril passou a ser uma espécie de festa para o mundo literário.
Outro fenómeno que pesa a seguir à revolução foi o das bibliotecas de leitura pública, um dos instrumentos de formação de novos leitores que passaram a ser compradores regulares de livros. Segundo Nelson de Matos “surgiram no final dos anos 70 com António Alçada Baptista, na altura presidente do Instituto do Livro, e Teresa Gouveia, Secretária de Estado da Cultura. Foram eles a dinamizá-las, generalizando-se por todo o país. Hoje em dia praticamente não existem municípios que não tenham uma biblioteca”.
Na escrita e conteúdos dos últimos anos temos assistido a grandes mudanças, entre elas a internacionalização dos
autores portugueses como António Lobo Antunes ou José Saramago. Assistimos também a um Portugal mais cosmopolita, hoje em dia é normal que um jovem escritor colha referências de autores de todo o mundo. A Internet teve uma grande influência com os blogues e com o fácil acesso a textos. Há mais informação relativamente ao que se faz lá fora e um maior contato com o exterior. As amarras partiram-se e hoje estamos muito bem posicionados ao nível da literatura mundial.

Elsa Garcia

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