A ler: O Independente
A Máquina de Triturar Políticos



Um livro para…

Pessoas interessadas por política nacional, jornalismo e, particularmente, pela história do semanário O Independente.

Primeiras frases

“Este é um livro sobre um jornal. Um jornal que marcou uma geração, agitou o país e coloriu o jornalismo cinzento que se fazia por cá. Um jornal que desarrumou certezas, desempoeirou formatos, libertou palavras, espicaçou ideias, provocou debates.

Sobre o livro

“Aprendi imenso. Queria apanhar erros mas acabei por saber muita coisa que não sabia; até sobre mim.”
Miguel Esteves Cardoso

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Um livro que não é a história de um jornal. É a história de como O Independente se tornou um projeto político e como as (não) relações com Cavaco Silva determinaram o sucesso do semanário nas décadas de 80 e 90.


No seu estatuto editorial, O Independente declarava-se um jornal “sem ambições políticas” e “indiferente a quem as tiver”, mas “democrata e conservador”, que “acredita na força das elites, respeita a tradição e aposta na autoridade”. Era assim que se assumia, mas, segundo Filipe Santos Costa e Liliana Valente, jornalistas e autores do livro O Independente – A Máquina de Triturar Políticos, o semanário era, na verdade, “um projeto político escondido com jornal de fora”.

Um jornal que desassossegou Cavaco Silva

Quando o Indy – diminutivo do semanário – chegou às bancas, vivia-se a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva e o entusiasmo dos fundos europeus. “Cavaco”, explica Filipe Santos Costa, “era o rosto dessas duas realidades e era contra ele que O Independente se afirmava.” A decisão de escrever sobre este período recai não só no facto de os autores serem jornalistas na área de política, mas também porque ambos quiseram escrever sobre “o semanário enquanto ácido sulfúrico do cavaquismo e fermento de uma nova direita”.

Liliana Valente acrescenta ainda outro pormenor: “Cavaco Silva era um personagem a quem Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso não reconheciam cultura. Não era da elite lisboeta, vinha de Boliqueime e, para eles, tinha pouca cultura, pouco conhecimento. O que fez dele o alvo de chacota nas páginas de costumes ou nos textos de opinião, além da trituração política e das políticas. Para eles, Cavaco era all package, o alvo perfeito.” Filipe Santos Costa remata: “Cavaco acabou por ser uma espécie de musa inspiradora d’O Independente.”

Páginas e páginas de escândalos

Para contar as histórias que tinham de ser contadas, Liliana Valente e Filipe Santos Costa voltaram aos textos mais polémicos e às grandes manchetes, entrevistando quem os escreveu e os alvos das referidas notícias. Foram cerca de 40 entrevistados, entre pessoas d’O Independente, ex-governantes e políticos.

A “cabeça de Paulo” e “o entusiasmo de Miguel” fizeram das primeiras 376 edições (entre maio de 1988 e julho de 1996) páginas de história que ainda hoje tinham muito para contar. Os autores do livro percorreram vários escândalos do semanário, analisando-os com a ajuda dos seus intervenientes e conseguiram, em 323 páginas, recuperar as histórias fascinantes dos bastidores da feitura de um jornal que tanto suscitava paixões como ódios.

Do caso da vichssoise de Marcelo Rebelo de Sousa, passando pelo escândalo sexual de Tomás Taveira, o andar nas Amoreiras de Miguel Cadilhe (então ministro das Finanças) e o lançamento de Basílio Horta para uma candidatura a Belém, este livro ajuda-nos a compreender o projeto d’O Independente enquanto faz um retrato político, económico, sociológico e cultural de Portugal nos anos 80 e 90.

“As manchetes de escândalo e os editoriais corrosivos de Paulo Portas ajudaram a demolir o cavaquismo e, embora nunca o tenham derrotado, contribuíram para defenestrar muitos dos generais de Cavaco – como Miguel Cadilhe ou Leonor Beleza. Mas muitos mais foram alvos do Indy, como Jorge Braga de Macedo ou Duarte Lima”, explica Filipe Santos Costa.

Liliana Valente aborda a proximidade ao Largo do Caldas: “É certo que o CDS sempre teve um espaço no jornal desmesurado em relação ao que tinha no país. As intrigas no partido do Caldas eram contadas ao pormenor. Mas a ligação mais umbilical dá-se quando Paulo Portas se vira a sério para o CDS na sua relação com Manuel Monteiro.” E aí sabemos todos como acaba este filme, não tivesse Paulo Portas chegado a vice-primeiro-ministro do governo de coligação liderado por Pedro Passos Coelho.

A nostalgia d’O Independente

Liliana Valente explica o interesse por este livro, que já vai na terceira edição: “Esta não é apenas uma peça de nostalgia, serve também para compreendermos melhor o passado e algumas personagens do passado, que existem ainda no nosso presente.” Filipe Santos Costa complementa: “Talvez a nostalgia d’O Independente também seja a nostalgia dessa liberdade e desses tempos em que tudo parecia possível. Aliás, n’O Independente tudo era mesmo possível.”


Por: Catarina Sousa

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