A importância de ser moderno

Um século depois do apogeu do movimento em Portugal, as exposições da obra de Almada Negreiros e Amadeo de Souza-Cardoso reavivaram, nos últimos meses, a ligação do público ao modernismo português. Esta corrente, que marcou boa parte do século XX, fica para sempre ligada à geração que viveu os anos da Grande Guerra e às tertúlias dos cafés lisboetas.

amadeo-souza-cardoso-revista-estante-fnac

Amadeo de Souza-Cardoso

Manhufe, 1887 – Espinho, 1918
Souza-Cardoso é um dos principais pintores do modernismo português, sobretudo pelas pontes que estabelece com as diferentes vanguardas europeias. Nascido em Manhufe, Amarante, parte para Paris aos 19 anos, onde estabelece amizade com Amedeo Modigliani e conhece Robert e Sonia Delaunay, que reencontra em Portugal anos depois. Com o início da Primeira Guerra Mundial regressa a Portugal, depois de participar em várias exposições internacionais. Morre aos 30 anos, vítima da Gripe Espanhola.
A ler:

Amadeo de Souza-Cardoso – Pintura

 

mario-sa-carneiro-revista-estante-fnac

Mário de Sá-Carneiro

Lisboa, 1890 – Paris, 1916
Filho e neto de militares, Mário de Sá-Carneiro fica órfão de mãe aos 2 anos (condição que partilhava com Almada Negreiros), tendo sido criado pelos avós numa quinta em Camarate. Depois de uma breve passagem por Coimbra, em 1911, e de ter conhecido Fernando Pessoa (o seu melhor amigo), parte para Paris um ano depois para prosseguir os estudos de Direito, mas rapidamente troca a Sorbonne pela boémia parisiense. É aqui que produz a maior parte da sua obra poética. Regressa brevemente a Portugal em 1914, mas volta para Paris no ano seguinte, de onde envia os seus textos para a revista Orpheu. Suicida-se aos 25 anos, em Paris, ficando para sempre como umas das principais figuras do movimento modernista.
A ler:

Antologia Poética de Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro: Prosa

 

almada-negreiros-revista-estante-fnac

Almada Negreiros

São Tomé e Príncipe, 1893 – Lisboa, 1970
“José de Almada Negreiros, Uma Maneira de Ser Moderno”, a exposição patente até junho na Fundação Calouste Gulbenkian, espelha bem o caráter multidisciplinar da obra de Almada Negreiros. Das artes plásticas à literatura e à performance, poucas foram as áreas não exploradas por este autor que, curiosamente, era um autodidata. Nascido em São Tomé, é dos poucos da sua geração que produz obra ao longo de várias décadas, sobrepondo-se à segunda e terceira gerações do modernismo. Morre em 1970, deixando como última obra o painel Começar, uma encomenda da Fundação Gulbenkian, concluída um ano antes.
A ler:

José de Almada Negreiros: Uma Maneira de Ser Moderno

Manifestos

 

fernando-pessoa-cardoso-revista-estante-fnac

Fernando Pessoa

Lisboa, 1888 – Lisboa, 1935
O mais universal dos poetas portugueses é educado em Durban, na África do Sul, onde frequenta um colégio católico irlandês. Bilingue, escreve os primeiros poemas em inglês. Apelidado pelo crítico literário Harold Bloom de “Whitman renascido”, cria obra também através de heterónimos, entre os quais Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. Morre em Lisboa em 1935, supostamente de pancreatite.
A ler:

Mensagem

Livro do Desassossego

 

“O Dantas em génio nunca chega a pólvora secca e em talento é Pim-Pam-Pum! …o Dantas nu é horroroso… O Dantas cheira mal da boca… e pasta Dantas prós dentes e graxa Dantas prás botas… Morra o Dantas… Morra… Pim!” Foi de pé, em cima de uma mesa, no Café Martinho da Arcada, que Almada Negreiros declamou o seu Manifesto Anti-Dantas, uma crítica a Júlio Dantas que, em 1915, atacara a revista Orpheu e o movimento modernista.

Nos anos da Grande Guerra, os cafés lisboetas eram o palco escolhido para as tertúlias do movimento modernista e, por isso, era normal que Almada escolhesse um café para declamar o seu Manifesto. Nas mesas da Brasileira, do Martinho da Arcada e do Café Montanha declamava-se poesia, tocava- se música, fazia-se teatro e trocavam-se ideias. Afinal, foi também no Chiado, nas imediações da Brasileira, que, na noite de 24 de março de 1915, a poucas horas da saída do primeiro número da revista Orpheu, foram declamadas algumas estrofes de “Ode Triunfal”.

Ser moderno em Portugal

Almada Negreiros, tal como Amadeo de Souza-Cardoso, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Santa-Rita Pintor (nome pelo qual ficou conhecido Guilherme de Santa-Rita), são nomes marcantes da primeira vaga do modernismo português. O movimento modernista tinha como base a ideia de que era necessário criar uma nova cultura, deixando para trás as formas tradicionais das várias manifestações artísticas: da pintura à poesia, passando pelo design e pela música.

Filippo Tommaso Marinetti, fundador do futurismo, foi uma figura marcante do modernismo com o seu Manifesto Futurista, divulgado no Le Figaro a 20 de fevereiro de 1909 e publicado em português, nesse mesmo ano, no Diário dos Açores.

Em Portugal, o modernismo parte da assimilação de duas correntes literárias: o simbolismo-decadentismo no final do século XIX e o futurismo no início do XX. As revistas que durante os anos da Primeira Guerra Mundial dão a conhecer o movimento espelham essa génese, já que nelas convivem diferentes correntes, como o paulismo – mais tradicionalista –, o intersecionismo, o sensacionismo e o futurismo.

Curiosamente – ou não –, a maioria dos artistas que marcaram a primeira vaga do movimento em Portugal fez parte da sua formação no estrangeiro: Pessoa na África do Sul, e tanto Santa-Rita, bolseiro de Belas-Artes, como Sá-Carneiro, que também se tinha inscrito em Direito, em Paris. Amadeo de Souza-Cardoso começa mesmo por ser conhecido fora de portas, expondo primeiro em França, no Salon des Indépendants, em 1911, e depois na Alemanha, na galeria Der Sturm, em Berlim.

Todos eles assumiam o modernismo como uma forma de estar. “Eu queria falar como ninguém fala, com palavras que ninguém empregasse; vestir-me de outra maneira, viver numa casa como nunca existisse”, declarou Santa-Rita Pintor. Ou, como anos depois Almada Negreiros explicaria na conferência “O Desenho”, realizada em Madrid, durante a época em que viveu na capital espanhola (1927-1932). “Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir, mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.”

Dos cafés para as rotativas

Símbolo maior do movimento modernista português, a revista Orpheu começou a ser gizada à mesa do Café Montanha, em janeiro de 1915, por Fernando Pessoa e Luís de Montalvor, que dirigiria o primeiro número. Nas palavras de Mário de Sá-Carneiro – que enviou os seus poemas de Paris e cujo pai financiava o projeto –, a revista tinha como objetivo “escandalizar o ‘lepidópedro burguês’”.

O primeiro número, publicado a 25 de março de 1915, conseguiu plenamente o objetivo, causando escândalo e sendo apelidada por alguns críticos de “companhia de doidos”. Foram sobretudo os textos “16”, de Mário de Sá-Carneiro, e “Ode Triunfal”, de Álvaro de Campos, que causaram maior furor. Mas o primeiro número contava ainda com as participações de Ronald de Carvalho, Almada Negreiros e Alfredo Pedro Guisado, entre outros.

Fernando Pessoa, que dirigiu o segundo número, lançado em julho de 1915, reagiu com humor às críticas e convidou o poeta Ângelo de Lima, que estava há anos internado num hospital psiquiátrico, para participar na edição.

Com a saída de alguns dos principais elementos e sobretudo com o fim do financiamento garantido pelo pai de Mário de Sá-Carneiro, o terceiro número da revista – de que foram impressas algumas provas em outubro de 1915 – já não chegou a ser publicado.

Pinturas que causaram escândalo

Também em 1915, mas em maio, realizou-se no Porto, no Salão de Festas do Jardim Passos Manoel (onde atualmente se localiza o Coliseu), a exposição “Humoristas e Modernistas”, que incluía nomes como Almada Negreiros, Cristiano Cruz, Abel Salazar e António de Azevedo, que assinava o cartaz.

No ano seguinte foi a vez de Amadeo de Souza-Cardoso dar a conhecer a sua obra em Portugal, depois de já ter exposto ao lado de Modigliani, Matisse ou Picasso e ter passado pelo Grand Palais, em Paris, ou pelo Armory Show, em Nova Iorque. As únicas mostras individuais que fez em Portugal tiveram lugar de 1 a 12 de novembro, também no Salão de Festas do Jardim Passos Manoel, no Porto, e de 4 a 18 de dezembro, na Liga Naval, em Lisboa.

Os trabalhos geraram curiosidade e dividiram o público: entre os milhares de pessoas que visitaram as exposições, houve quem aplaudisse, criticasse e até quem cuspisse para cima das obras. No Porto, as reações extremadas passaram mesmo por uma agressão que levou Souza-Cardoso ao hospital.

Foi Amadeo quem tratou de toda a organização das mostras: da montagem ao catálogo, passando pelo transporte das 114 obras que levou do Porto para Lisboa, de comboio, com o auxílio de familiares e amigos. Almada, que apresentou a exposição na Liga Naval como “mais importante do que a descoberta do caminho marítimo para a Índia”, chegou a escrever textos a exigir a visita à exposição.

“Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades”

Em novembro de 1917 foi publicado o único número da revista Portugal Futurista, apreendido pela polícia 15 dias depois, na sequência da denúncia sobre a linguagem usada no texto “Saltimbancos”, de Almada Negreiros. Com caráter internacional, a revista reunia artigos de Marinetti, Blaise Cendrars e Guillaume Apollinaire, e incluía também “Ultimatum”, de Álvaro de Campos, e “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”, de Almada Negreiros.

Este último texto tinha já sido declamado em abril daquele ano, na Primeira Conferência Portuguesa, no Teatro República, onde Almada chegara vestido com um enorme fato-macaco. Perante aplausos, apupos e o espanto geral, lançou: “É preciso criar a pátria portuguesa do século XX. Aproveitar sobretudo este momento único em que a guerra da Europa vos convida a entrardes para a civilização. O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades.” Pelo meio, ainda se envolveu numa troca de palavras falsamente espontânea com Santa-Rita Pintor.

Irreverência, sarcasmo e forte criatividade eram a imagem de marca dos artistas ligados à primeira vaga do modernismo português. Para a história ficou o dia em que Almada Negreiros pintou o cão (um galgo) todo de verde e o foi passear pelas ruas de Lisboa, causando escândalo. Também era comum vê-lo aos saltos por cima das mesas da Brasileira, até chegar ao balcão, onde fazia o pedido do pequeno-almoço.

Os cafés lisboetas eram, para aquela geração, o lugar de encontro e troca de experiências por excelência. Na Brasileira do Chiado expunham-se os quadros da nova corrente artística – redecorado em 1925, o espaço passa a incluir quadros de Almada Negreiros, Eduardo Viana ou José Pacheco – e foi ali que Almada Negreiros e Sarah Afonso se conheceram. A pintora era das poucas mulheres a aparecer lá sozinha.

Foi no Suíço que Fernando Pessoa conheceu Camilo Pessanha e no Café Montanha que o mesmo Pessoa, sob o heterónimo de Álvaro de Campos, se encontrou com João Gaspar Simões e José Régio. Os dois últimos viriam a ser figuras de proa da revista Presença, publicação que marca o chamado “segundo modernismo” português, afirmando-se como uma das principais revistas literárias do século XX. Lançada em Coimbra em 1927, foi publicada até 1940 e contou com a colaboração de autores tão conceituados como Miguel Torga, Adolfo Casais Monteiro, Aquilino Ribeiro ou Ferreira de Castro.


Por: Susana Torrão
Fotografias (topo): Fundação Calouste Gulbenkian

Gostou? Partilhe este artigo: