A estante de Mário Cruz

 

Mário Cruz
Nasceu em Lisboa, em 1987, e é fotojornalista. O seu trabalho foi publicado em vários meios nacionais e internacionais de referência. Foi também distinguido com vários prémios, incluindo o Prémio Estação Imagem e o World Press Photo. É jurado do Novos Talentos Fnac Fotografia 2016.

O fotojornalista Mário Cruz apresenta-nos a sua estante, que é exatamente o que se espera de um profissional do seu calibre: uma coleção de livros para admirar e inspirar.

Mário Cruz não tem muitas fotografias espalhadas por casa. Nem precisa. Toda a inspiração de que necessita mora na sua estante, ocupada sobretudo por livros de fotografia. “Gosto de livros de filosofia, gosto de alguns policiais, gosto de crónicas, mas confesso que na minha estante é quase tudo de fotografia”, admite o fotojornalista.

Considera-a, acima de tudo, uma ferramenta de trabalho e deixa que os livros que a ocupam o infuenciem na sua maneira de entender a fotografia. Até porque acredita no poder do livro enquanto objeto: “Tem um poder muito grande, que acho que nunca vai ser alcançado pela Internet ou por jornais e revistas. É um poder físico que é quase insubstituível.”

Talvez devido a esta crença, publicou este ano Talibes – Modern Day Slaves, um livro que documenta os abusos sofridos por mais de 50 mil crianças em falsas escolas corânicas no Senegal. Uma obra em destaque na sua estante, entre câmaras fotográficas e distinções internacionais.

 

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Talibes – Modern Day Slaves, recentemente publicado por Mário Cruz, é um dos destaques da estante. “O livro surgiu da absoluta necessidade de criar uma prova física do sofrimento de mais de 50 mil crianças no Senegal.” O desafio foi lançado pela editora FotoEvidence e materializado através de uma campanha de crowd funding. “Quero acreditar que é mais do que um livro. Fico muito feliz por saber que será distribuído por escolas, bibliotecas e associações locais no Senegal e na Guiné-Bissau, porque só através do conhecimento é que estas realidades poderão mudar.”

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Em evidência encontra-se também o prémio conquistado no World Press Photo deste ano. “Nunca pensei em ganhar um e provavelmente não o voltarei a ganhar, mas ainda bem que aconteceu porque me trouxe a visibilidade que queria para o Talibes – Modern Day Slaves.”

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In ferno, do fotógrafo americano James Nachtwey, é um dos livros que Mário Cruz mais valoriza. “É um monógrafo de uma década e um trabalho muito humanista. Mostra muito mais do que a fome destruidora na Somália, o massacre no Ruanda ou a guerra na Bósnia; mostra o compromisso e o empenho total de um fotógrafo em prol da consciencialização humana.”

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Paolo Pellegrin é uma das principais referências de Mário Cruz e está presente com vários livros, entre os quais Dia da Ira. “É uma retrospetiva de um fotógrafo que teve uma influência muito grande no meu trabalho. Marcou uma tendência na fotografia contemporânea.” Curiosamente, foi das mãos deste fotógrafo italiano que Mário Cruz recebeu o Prémio Estação Imagem, em 2014.

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Um dos livros mais curiosos da estante é Bad Weather, de Martin Parr. São fotografias a um livro de fotografias previamente preparado pelo inglês, com o objetivo de demonstrar a evolução do seu estilo. “É um livro dentro de um livro”, resume Mário Cruz.

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O último livro que chegou à estante foi Family Love, de Darcy Padilla, sobre uma família disfuncional com problemas de toxicodependência. “É um registo muito forte mas também muito único pelo tempo que a fotógrafa dedicou a documentar esta família, ao ponto de acompanhar o crescimento do filho e a rotura total entre o casal. Reflete o que um bom trabalho deve ter: tempo. Estamos no tempo em que não temos tempo para o tempo, mas sem dúvida que precisamos dele.”

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Um Manual de Fotograf ia da Walt Disney salta à vista na estante de Mário Cruz. “Quando tinha 5 ou 6 anos, o meu pai começou a dar-me livros de fotografia. Tenho este aqui. Para o meu futuro filho, quem sabe.”

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Várias câmaras partilham espaço com os livros nesta estante. Mário Cruz destaca duas: uma Nikon FM2, com a qual estudou enquanto terminava o curso, e a Fuji com que fez todos os seus projetos pessoais até à data. “Tem um valor acrescido porque me foi dada pela minha namorada Patrícia numa altura em que me sentia um bocado perdido na fotografia. Contribuiu para que me voltasse a focar no que queria: fazer reportagens e documentar temas que merecem a nossa atenção.”

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Está na estante, mas acompanha Mário Cruz em todas as viagens que faz. É uma caixa de música que toca uma versão instrumental de “La Vie en Rose”. “Foi companhia no Senegal, em noites mais solitárias e difíceis de passar. De certeza que me irá acompanhar em viagens futuras.”

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Mas nem só de fotografia vive a estante. Nela se encontra também Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime, ensaio de Immanuel Kant que Mário Cruz já leu várias vezes. “É um livro de reflexão curioso para nós, fotojornalistas, que documentamos muitas vezes realidades dramáticas mas que tendem a ficar belas. Kant tenta caracterizar o belo e o sublime em termos sociais. Acho que é uma boa discussão. Fez-me questionar muito o meu trabalho.”

Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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