A estante de Catarina Furtado

Sorri quando fala de livros, quando pega neles, quando os folheia. Perde-se por poesia, mas sobretudo por histórias de pessoas reais. E são muitas as que Catarina Furtado carrega consigo.

O Que Vejo e Não Esqueço - Catarina Furtado

Das viagens a países profundamente marcados por desigualdades resultou este livro, o seu livro, que Catarina Furtado não se coíbe de recomendar. “Há nele episódios muito pessoais. Tive a preocupação de dar a conhecer ONG que estão a fazer um trabalho exímio no terreno. E nada vem mais a propósito porque, depois de tantos beliscares na credibilidade das ONG devido ao caso das Raríssimas, que foi uma vergonha absoluta, é muito importante que as pessoas não tomem o um pelo todo.”

Chega carregada de livros. Sorri contagiosamente. “Espero não me ter esquecido de nenhum importante!”, desabafa. Rapidamente percebemos que Catarina Furtado tem um enorme respeito pelas obras e pelos seus autores. Basta-lhe um bom livro na mão para ser feliz.

A lista dos que a marcaram ao longo da vida é quase tão extensa que a sua estante – são várias, na realidade – está situada num anexo da sua casa, todo ele forrado por livros. Uma “modesta réplica”, explica a apresentadora, da biblioteca dos seus sonhos, originalmente idealizada por Umberto Eco. “O meu sonho é ter a biblioteca de O Nome da Rosa”, revela. Uma biblioteca gigantesca, quase infindável. Um verdadeiro labirinto de livros.

Perde-se por biografias e poesia, mas a sua seleção mostra que gosta de um pouco de tudo. Desde o surrealismo de Haruki Murakami aos contos de Valter Hugo Mãe, passando por Mia Couto, Woody Allen ou pelas memórias de Dalai Lama.

A conversa com a Estante decorre no Corações com Coroa Café e prolonga-se por duas horas. Duas boas horas. A dada altura – já depois de nos falar dos livros que trouxe consigo –, Catarina Furtado leva-nos a percorrer a biblioteca que coabita com a sua associação Corações com Coroa. É quanto baste para se lembrar de mais autores que a têm vindo a inspirar, como Virginia Woolf ou Hermann Hesse.

Termina do mesmo modo como começou: com um largo sorriso no rosto. No meio de tudo isto, só uma coisa a entristece: relembrar que não tem o tempo que gostaria para percorrer a sua to read list – que está sempre a aumentar. “É um verdadeiro luxo podermos parar para ler e muitas vezes não damos valor a isso. Steve Jobs é que o dizia quando estava a morrer: ‘Por favor valorizem o tempo.’ Eu acredito muito nisso.”

OS LIVROS DE CATARINA FURTADO

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Haruki Murakami

“É sempre um exercício maravilhoso ler Murakami. E é impressionante, porque gostei de todos os livros dele.” Atualmente, Catarina Furtado encontra-se a meio da leitura de Flíper, pelo que não quis deixar de enaltecer o trabalho da tradutora Maria João Lourenço. “O trabalho de uma tradutora é um trabalho draconiano que raramente é aplaudido. Por isso, faço-lhe aqui uma homenagem.”

O Sonho de Uma Outra Vida

Um relato “interessantíssimo” de Katherin Boo sobre os miúdos de rua de Bombaim. “É uma realidade que me toca imenso porque fiz uma reportagem sobre esses miúdos que comem o lixo dos outros e a cadeia que começa nos hotéis de 6 estrelas, que deitam tudo fora, e acaba em alguém que usa aquilo como o maior dos luxos. Toda a gente devia ler este livro.”

Woody Allen

“Li praticamente todos os livros de Woody Allen. E antes de ver os filmes! O humor e o amor dos livros dele foram muito marcantes para mim. Mas depois entrevistei-o – ainda era gaiata – e fiquei um bocadinho desiludida. No final, disse-lhe que pensava que a entrevista ia ser mais divertida.’ E ele diz: ‘Pois é, mas eu não estou a ser pago para dizer piadas.’ Fiquei destroçada.” Ainda assim, tem um carinho muito especial pela escrita do americano.

Eduardo Lourenço

“É o maior génio português vivo”, diz Catarina Furtado, enquanto folheia O Esplendor do Caos, do filósofo e autor português. Serão precisas mais palavras?

Nelson Mandela: Arquivo Íntimo

“Sou absolutamente viciada em biografias.” Muitas marcaram Catarina Furtado, pelo que lhe é quase impossível escolher apenas uma. Acaba por nomear a de Nelson Mandela. “Foi um relato que me inspirou imenso.”

Poesia, poesia, poesia

“A poesia está sempre comigo.” Quando tem oportunidade, Catarina Furtado retorna às obras de dois dos autores que mais admira: Ruy Belo e Eugénio de Andrade.

Noites em Branco

“Quero prestar uma homenagem a Pedro Rolo Duarte, que partiu há pouco tempo.” Catarina recomenda, por isso, este livro que retrata as várias facetas do jornalista. “Era um homem fantástico, um amante de livros que tinha muito respeito pelas palavras. Quando comecei a estagiar na Rádio Correio da Manhã, tinha eu 20 anos, ele tinha lá um programa e dava-me muitas dicas de bons livros.”

Dalai Lama

A Autobiografia Espiritual de Dalai Lama é vivamente recomendada pela fundadora da Corações com Coroa. “Entrevistei-o há muitos anos e acho que é um bom contraponto com outras religiões. É bom bebermos de várias coisas e, francamente, numa altura em que somos intoxicados por frases feitas nas redes sociais, acho importante lermos este livro para refletirmos.”

O Principezinho

O “inevitável” livro de Antoine de Saint-Exupéry foi “muito importante” para Catarina Furtado na infância e adolescência. “Fez-me perceber uma coisa que, por mais lugar comum que seja, não devemos esquecer: o essencial é invisível para os olhos. Num mundo que dá cada vez mais importância ao parecer do que ao ser, acho fundamental regressarmos a O Principezinho.”

Mia Couto

“Sempre. Mia Couto sempre.” E por que motivo o autor moçambicano é uma constante na vida de Catarina Furtado? “Gosto de todos os livros dele. Além disso, foi-me acompanhando sempre com [a série documental] Príncipes do Nada.”

Contos de Cães e Maus Lobos

Foi o último livro que leu. “Ainda o tenho à beira da cama. É um livro com pequenos contos de Valter Hugo Mãe, um autor que acho que está a fazer um percurso muito interessante, até mesmo na poesia.”

Livros que passa aos filhos

“Cresci muito feliz com António TorradoManuel António Pina e, claro, Sophia de Mello Breyner Andresen”, lembra Catarina Furtado. “Faço questão que os meus filhos também os conheçam.”

Eu Serei a Última

Recém-chegado à estante de Catarina Furtado, este livro de Nadia Murad será certamente uma das suas próximas leituras. “É a história inacreditável de uma mulher yazidi, a comunidade que foi dizimada pelo Estado Islâmico. A mãe dela morreu, os irmãos morreram, ela foi raptada, ciclicamente violada, mas conseguiu sobreviver.” Um relato do tráfico humano que, acredita Catarina, vale muito a pena.

Edgar Cardoso

Um dos livros mais raros que Catarina Furtado tem é sobre a vida de um familiar seu: “O engenheiro Edgar Cardoso, conhecido como o homem das pontes. Foi o homem que mais pontes fez, até entrou no Guinness, porque fez pontes em milhares de países. O livro é muito interessante: ele era um génio, não tinha filhos, casou com a tia e toda a gente que se cruzava com ele concorda que era uma sumidade, sempre a rasgar a loucura.”

Um objeto especial

“Quando fui fazer uma reportagem sobre o projeto de recuperação do Parque Natural da Gorongosa, houve um dia em que levei as crianças que lá moravam a ver os animais pela primeira vez”, recorda. “Elas achavam que os animais eram apenas das fábulas que os pais e os avós lhes contavam. Durante o percurso, houve uma voluntária que me desenhou um Bambi a carvão. Tem muito significado para mim, por isso está na minha estante.”

Cartas da Guerra

“É um livro muito bonito, este das cartas de amor do António Lobo Antunes para a sua mulher, durante a Guerra Colonial”, diz Catarina Furtado. “Lembro-me de que o levei para uma das minhas viagens e marcou-me muito.”

Virginia Woolf

Outra das autoras que Catarina Furtado mais admira é a inglesa Virginia Woolf. “Era uma mulher muito à frente do seu tempo, e acho que isso se reflete nas suas obras, que também adoro.”

Elogio da Velhice

Esta coleção de textos sobre a velhice escritos por Hermann Hesse é outro dos livros preferidos de Catarina Furtado. “É lindo, comovente, absolutamente fantástico. Um daqueles livros que acho que toda a gente devia ler.”

Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE
Agradecimentos: Corações com Coroa e Biblioteca de Belém

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