A Estante de Ana Bacalhau

Descobriu o mundo através dos livros. Cresceu com eles, pensou com eles, riu com eles. Estudou-os. Quais são os que mais inquietam Ana Bacalhau?

Álbum - Nome Próprio

Nome Próprio
Ana Bacalhau tem percorrido o país para apresentar o seu primeiro álbum a solo. Nele estão algumas das suas letras originais. “Eu adoro ser intérprete, adoro pôr o meu sangue na letra dos outros, mas ao mesmo tempo tenho coisas para dizer que só eu sei.”

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A revista Estante agradece ao Teatro Capitólio por nos ter recebido para esta conversa e sessão fotográfica com Ana Bacalhau.

A “menina rabina” tem dois amores: a música e – poucos o sabem – os livros. De qual gosta mais? Impossível dizer. A verdade é que os olhos de Ana Bacalhau brilham quando fala sobre os livros e autores da sua vida. Brilham porque desde pequena encontra na literatura paz de espírito; porque, de repente, se vê transportada para os tempos de adolescência e faculdade; porque traz para esta conversa com a Estante verdadeiras “bíblias” sobre as quais tem tanto a dizer.

“Arranjo sempre tempo no meio da azáfama para falar de livros”, garante. Perde-se ao falar da biografia de Janis Joplin, que tanto a ajudou a encontrar um rumo na música (e na vida). Solta gargalhadas quando recorda os “malandros” de Mário Zambujal. Suspira com os poemas de Sophia de Mello Breyner e de Fernando Pessoa.

E poderia ficar horas a fio a falar dos livros que guarda com carinho. “Tenho centenas. Só em minha casa tenho quatro estantes cheias. E tenho mais ainda na casa dos meus pais e na casa dos meus avós.”

Sentada num camarim do Teatro Capitólio, conta-nos ainda como a escrita foi a sua primeira forma de expressão artística. “Antes de descobrir a minha voz já escrevia crónicas e pensamentos numa máquina de escrever que os meus pais me deram.”

Então, para quando um livro? “Quero escrever um, sim, mas acho que ainda não estou no tempo certo. Quero escrever ficção e até já tenho uma ideia de história e personagens, mas só quando estiver muito segura. Quem sabe daqui a 10 anos, quando tiver 50…” Ficamos à espera.


OS LIVROS DE ANA BACALHAU


 

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Com Amor, Janis Joplin

Sem dúvida, uma das mulheres da sua vida. “Tenho todos os livros que foram escritos sobre a Janis Joplin, mas este é especial porque foi escrito pela irmã dela e inclui as cartas que a Janis foi escrevendo ao longo da carreira. Hoje em dia não se veem mulheres assim na música: não se maquilhava, não rapava os pelos debaixo dos braços, estava-se a borrifar para o que achavam dela e cantava que nem uma desalmada! Depois de tanto a ouvir, comecei a sentir algumas semelhanças entre nós: ela sofreu de bullying e eu também, por exemplo. A música foi uma salvação para ela, mas de certo modo também foi a sua desgraça. E eu pude evitar os erros que ela cometeu, nomeadamente os excessos de drogas e álcool. Portanto, este livro foi muito importante para mim. Ensinou-me a viver a música de um modo genuíno.”


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Crime e Castigo

“Li-o no primeiro ano da faculdade e, de facto, foi um livro que rachou algo aqui dentro”, assegura Ana Bacalhau. “O mais interessante nem é a história em si, mas o processo de culpa que acontece desde que o personagem principal, Raskólnikov, comete o crime até se entregar e chegar à redenção. Foi um livro que me fez pensar muito.”

Orlando

Orlando

No início do século XX já Virginia Woolf “estava muito à frente do seu tempo”. Prova disso é este livro, que debate questões de identidade de género. “Fala-nos de um personagem que nasce homem e que, depois de uma noite atribulada, acorda mulher. Vive 300 e tal anos sem envelhecer e casa-se com um homem que também não cabe nos moldes da identidade de género.” É, por isso, “um romance muito atual e desafiante”.

 

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A Salvação de Wang-Fo e Outros Contos Orientais

“Adoro contos!”, começa por afirmar. Aliás, sempre que vai de férias esse é o seu género literário de eleição. “Os contos são os melhores amigos do verão para alimentar o corpo e a cabeça. Neste livro em particular, Marguerite Yourcenar inspira-se em mitos e lendas orientais e reinventa-os. Gosto muito da escrita dela porque é clara mas, ao mesmo tempo, muito sensível.”

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À Espera de Godot

Ana Bacalhau não teve uma educação religiosa. Por isso, procurou nos livros uma ligação com o divino. Foi assim que descobriu a obra de Samuel Beckett. “Fala-nos da ilusão de alguém que está à espera do tal Godot – ou Deus – para salvar a situação mas que nunca aparece. É um bocadinho como nós. Enquanto não aparece ninguém para nos ajudar, vamo-nos safando aqui em baixo o melhor que podemos. É um retrato do ser humano muito cru.”


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Crónicas dos Bons Malandros

“Escangalhei-me a rir com o Mário Zambujal”, confessa a artista, imediatamente antes de ler um trecho e desatar à gargalhada. “Andava eu no secundário quando fui à biblioteca dos meus pais e agarrei neste livro. Ora, eu sou lisboeta – do bairro mesmo! – e, portanto, conheci estes bons malandros. É uma coisa que me é muito familiar, esta malandrice à portuguesa. Adorei, mesmo. É uma prosa sem artifícios.”


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Obra Poética

Um dos livros mais especiais para Ana Bacalhau. “Foi-me deixado em herança pela minha professora de canto, a Rosarinho”, recorda. E sobre a autora tem muito a dizer. “Tanto na prosa como na poesia, a escrita de Sophia de Mello Breyner é delicada e muito musical. É um livro lindo. Há um poema de Sophia para cada dia.”

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Enciclopédia da Estória Universal

“Ai… Músicos a escrever bem é tão bom!”, desabafa Ana Bacalhau. E este livro entra, sem dúvida, no seu top pelas observações “inteligentes” que Afonso Cruz faz. A cantora dá um exemplo. “‘Há dois tipos de pessoas no mundo: as que acreditam que Pessoa morreu e as que o leram ainda no outro dia.’ Isto é maravilhoso!”

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Livro do Desassossego

Uma obra que “dispensa apresentações” e que desassossegou Ana Bacalhau no final da adolescência. “Isto é uma bíblia para quem gosta de ler, para quem gosta de pensar em si, em nós, para quem se sente inadaptado. E eu sempre me considerei uma pessoa desassossegada, inquieta, com bichos-carpinteiros.”

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Alice no País das Maravilhas

Um dos livros mais raros que Ana Bacalhau tem na sua estante contém várias histórias de Lewis Carroll. “Uma edição azul, de capa grossa, enorme. Tem Alice no País das Maravilhas e não só. É a obra completa dele. E as ilustrações são lindas!”


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Vai e Põe Uma Sentinela

Depois de ler o clássico Mataram a Cotovia, Ana Bacalhau planeia ler o livro que Harper Lee escreveu ainda antes desse. “Quero muito ler Vai e Põe Uma Sentinela. Gostei muito da escrita dela e de Mataram a Cotovia. Vai ser um dos meus próximos.”

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Sete Cartas a Um Jovem Filósofo

“A minha mãe deu-me este livro entre o meu 9.º e 10.º anos, antes de começar a ter Filosofia. Deu-mo para que eu começasse a pensar em certas coisas e, por isso, foi um livro muito formativo para mim”, recorda a artista. Aliás, ainda hoje Agostinho da Silva é uma referência. “De vez em quando ainda o procuro no YouTube para ouvir o que tem a dizer. É um dos nossos grandes filósofos e génios.”

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Arno Schmidt

Num registo diferente, Ana Bacalhau recomenda “um escritor pouco conhecido em Portugal”. “O Arno Schmidt escreve novelas. Em Collected Novellas é muito interessante a forma como ele escreve. Utiliza a pontuação de uma forma arrojada e põe em causa os códigos da escrita. É como um poeta a escrever prosa, digamos assim. Descobri-o quando estava no final do meu curso de Literatura e achei-o muito engraçado.”

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O Jogador

Um dos últimos livros que Ana Bacalhau leu foi O Jogador, de Dostoiévski, autor que não se cansa de elogiar. “Mas desde que fui mãe tem-me sido difícil pegar em livros e ter a paz de espírito para isso. Quando tiver férias, conto ler alguns livros que tenho lá em casa.”


Por: Carolina Morais
Fotografias: Bruno Colaço/4SEE

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