Editorial: Nuno Artur Silva

ESCRITORES


O escritor contemporâneo escreve para e por todos os meios. Escrever hoje é escrever todos os géneros.

Os escritores estão a tornar-se atores, performers das suas palavras ao vivo: apresentações, conferências, debates ( jam sessions), defesa de causas, programas de TV, net, redes sociais, etc.

Contra tudo isto, o escritor eremita, com a sua exceção e a sua aura. Aquele que comunica só com o seu editor ou agente (por causa disso, os que poderão ter mais valor mediático).


O ESCRITOR NA ERA DA REPRODUTIBILIDADE DOS ESCRITORES


Borges dizia que no futuro todos seríamos escritores. ironia à parte, uma profecia que se cumpre.

Proliferação dos registos pessoais, biográficos, das histórias de vida: práticas de apresentação do Eu na vida de todos os dias (Erving Goffman).

Passamos dos 15 minutos de fama do Andy Warhol para uma permanente presença nas redes de comunicação. não falta muito para se cumprir outra profecia: no futuro, todos teremos um agente para a nossa vida pública (Brian Eno).


LEITORES


Ninguém está a ler porque estamos todos a escrever.

Mesmo os que vivem de escrever sobre livros (ou sobretudo esses) leem a correr, transversalmente. caminhamos por cima de livros abertos, deixados a meio.revista-estante-editorial-nuno-artur-silva

DA ADAPTAÇÃO DOS LIVROS AO FUTURO


As pessoas com sacos cheios de livros fazem lembrar o tempo em que não havia água canalizada e se ia às fontes com bilhas. Hoje, os “livros” chegam-nos canalizados.

Tal como quando deixámos de ler em voz alta e passámos a ler em silêncio, os sistemas eletrónicos vêm permitir um novo género de escrita e de leitura que ainda mal começou a ser explorado.

É não só o hipertexto, como a possibilidade de cruzar com as palavras e as imagens outros registos, como
o som e a música ou as imagens em movimento.

Imaginem as possibilidades que se abrem ao podermos “escrever” um livro que nos faça passar de uma história para outra que foi citada, que nos permita ouvir a música que a personagem trauteia, que nos dê uma visão da cidade que ela percorre, etc.

Ironicamente, esta mudança não vai ser a morte do livro em papel, mas a sua salvação.

Os livros que escolhemos ter nas nossas estantes vão ser, literalmente, escolhidos a dedo como objetos de coleção e, tal como hoje acontece com os livros infantis, podem ter mil e uma formas e feitios.

Os textos podem ir ficando disponíveis de forma incompleta, na versão eletrónica, como se fossem faixas musicais. Mas o que vai ser valorizado são os livros em edições limitadas e assinadas.

(“Os livros são objetos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor tátil” – caetano Veloso).


LIVRARIAS


Lugares de encontro dos leitores. e dos escritores com os seus leitores. não confundir com postos de venda.

Livraria, café literário.


LITERATURA


A literatura, no futuro como no passado, é o que resiste, o que fica dos tempos, como tempo.


Nuno Artur Silva

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