80 anos de Helder Macedo

Fotografia: Luísa Ferreira

Helder Macedo celebra hoje o seu 80.° aniversário com a publicação de dois novos livros. Em conversa com a Estante, o autor aproveita a data para avaliar a atualidade cultural de Portugal e reconhece que ainda se encontra em processo de aprendizagem.

Nasceu na África do Sul, a 30 de novembro de 1935. Cresceu em Moçambique e passou por Guiné e São Tomé. Vive há muitos anos em Inglaterra. Mas, sempre que lho perguntam, Helder Macedo não tem dúvidas: é português. É, de resto, em língua portuguesa que se move entre poesia e prosa desde o lançamento de Vesperal, o primeiro livro, em 1957, aos de Romance e Resta Ainda a Face, já este ano. A justificação é simples: “O nascimento na África do Sul foi um acaso, saí de lá quase a seguir. A infância em Moçambique foi importante, a vida adulta na Inglaterra é e continua a ser importante, mas talvez os meus anos formativos em Portugal tenham sido os que mais profundamente me marcaram.”

Helder Macedo viveu em Portugal entre os 13 e os 25 anos. Neste período, frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa, fez parte do famigerado Grupo do Café Gelo – junto com nomes como Herberto Helder, Luiz Pacheco e Mário Cesariny – e tornou-se um ativo opositor da ditadura fascista. Perseguido pelo regime, viu-se forçado a partir para Londres, onde se licenciou em Literatura e História (com uma tese sobre Bernardim Ribeiro) e completou um doutoramento em Letras (com uma tese sobre Cesário Verde). Tornou-se então professor, atividade que mantém e a qual interrompeu somente durante alguns anos para retornar a Portugal, após a Revolução de Abril, e exercer os cargos de diretor-geral dos Espetáculos e secretário de Estado da Cultura.

“O que escrevo certamente reflete a minha experiência de vida em vários lugares, em vários tempos e em várias culturas”, reconhece. “São realidades diversas entre si, mas são manifestadas através da língua em que escrevo – em que escolhi escrever – e essa é a língua portuguesa. Que é a língua da minha identidade, a língua que eu sou, em que tornei essas experiências parte de mim.”

“Nem tudo o que parece ser literatura é literatura”

Não obstante a afeição que sente pela língua portuguesa, Helder Macedo recusa a ideia de que um escritor português deva ter como objetivo principal a divulgação da cultura do seu país: “O primeiro – se calhar o único – dever de um escritor é em relação àquilo que escreve.” Admite, contudo, que aquilo que se escreve “pode vir a ser um fator de divulgação”. E vai mais longe: “No caso de um escritor português, até pode contribuir para divulgar a cultura portuguesa entre os portugueses, que bem precisam.”

Bem a propósito, o ex-secretário de Estado da Cultura recorda o trabalho realizado quando fez parte do governo, em 1979: “Tenho muita honra em ter trabalhado com a primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo. Se a tivessem deixado – e se não tivessem apagado retrospetivamente o que conseguiu fazer em tão pouco tempo –, teria melhorado qualitativamente o nosso país e, portanto, enriquecido a nossa cultura.” O autor considera, no entanto, que ter desempenhado esta função não o torna mais habilitado para avaliar a atualidade cultural portuguesa. “Mas, como cidadão português que escreve e como professor de literatura portuguesa em universidades estrangeiras, noto que, por um lado, o nível médio da nossa cultura subiu consideravelmente. Por exemplo, há muito mais gente que lê do que havia. Por outro lado, há enormes confusões entre níveis de qualidade. Nem tudo o que parece ser literatura é literatura.”

Há ainda o problema de que, com raras exceções, a literatura portuguesa não costuma ser capaz de ultrapassar fronteiras e afirmar-se nos mercados internacionais. Helder Macedo vê-o como um problema de língua: “A língua do poder económico é a inglesa e o poder económico tende a obliterar as outras línguas e culturas. Tem de se lutar contra isso, é claro. E tem-se lutado, por exemplo incentivando traduções. Mas isso não chega. Tem de se mostrar às outras culturas que beneficiariam, nos seus próprios termos, se conhecessem a nossa. Isso faz-se através do ensino universitário e de uma política cultural nos países de outras culturas. É, portanto, inacreditável – é culturalmente obtuso – que, por exemplo, o nosso governo tenha abolido o cargo de Conselheiro Cultural na Inglaterra. Onde também a Fundação Gulbenkian se desinteressou da cultura portuguesa. Assim não se vai lá.”

“Interessam-me sobretudo os escritores que estão a tomar riscos”

Nem tudo está mal se o talento existe, e embora seja da opinião que referir alguns autores em detrimento de outros é uma tarefa injusta e ingrata, Helder Macedo aventura-se a destacar os nomes de três escritores portugueses da atualidade: António Cabrita, Joana Emídio Marques e Paulo José Miranda. E explica: “Os escritores que mais me interessam não são necessariamente os mais celebrados. Esses já têm o seu público, alguns deles já disseram o que tinham a dizer e se calhar continuam a dizer o mesmo que já disseram e que o seu público espera que digam. Interessam-me sobretudo os escritores que estão a tomar riscos, que procuram sacudir a complacência circundante. Ou seja, alguns prosadores que persistem em alargar fronteiras e algumas poetas (sim, sobretudo mulheres) que estão a procurar uma linguagem nova, tendo assumido a sua qualidade pós-feminista de mulheres que deixaram de ser objeto do discurso masculino e se tornaram sujeitos do seu próprio discurso.”

Mais fácil é para o autor escolher aqueles que considera os melhores livros lusófonos de sempre, até porque já explorou vários deles em alguns dos ensaios que escreveu: “Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, a Lírica e a Épica de Camões, os romances e os contos de Machado de Assis, Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, o Eça, o Cesário Verde, o Pessoa, o Sá-Carneiro, dos mais recentes Jorge de Sena, Cesariny, Cardoso Pires, Saramago, da minha geração o Herberto Helder e o Manuel de Castro. São muitos e há mais.”

“A morte é a estupidez absoluta”

A obra do próprio Helder Macedo acaba de ser enriquecida este ano com o lançamento de dois novos livros: Romance e Resta Ainda a Face. O primeiro, publicado pela Editorial Presença, é um longo poema que dá a conhecer uma história em fragmentos; o segundo, editado pela Abysmo, é uma coleção de poemas selecionados por Paulo José Miranda. O tema predominante dos dois livros é o amor, isto embora funcionem em níveis distintos. “Pois é, mas o amor também funciona em níveis distintos”, contrapõe o autor. “E há várias formas de amor. Cada um destes livros é, à sua maneira, sobre a vida que há, como uma ilha circundada de morte por todos os lados. Sobre o amor, portanto. Que é o que realmente diferencia a vida da morte. Ambas as obras nasceram disso.”

Romance e Resta Ainda a Face surgem no ano em que Helder Macedo completa 80 anos de vida, aos quais correspondem 58 de carreira. Mas o autor tem apenas um desejo: “Que os meus livros se encontrem nas livrarias.” Helder Macedo disse um dia que escreve poesia para se conhecer e prosa para compreender os outros, isto embora hoje reconheça que “as duas coisas acabam por ser a mesma”. Será a publicação das novas obras um sinal de que ainda permanece ativamente em processo de aprendizagem? “Só os mortos nunca aprendem”, responde. “A morte é a estupidez absoluta.”


Por: Tiago Matos

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