50 anos da Dom Quixote

A editora disruptiva que estendeu a mão aos autores portugueses

Nem só de poetas e romancistas lusos se fez o caminho da Publicações Dom Quixote, editora fundada por uma dinamarquesa para “abrir Portugal”. É, até hoje, a que mais laureados Nobel publicou e as suas coleções originais continuam a marcar gerações.

Por Joana Azevedo Viana
Fotografia: D. R.

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Maria Teresa Horta já publicara livros na Guimarães Editores e poemas avulsos nos idos suplementos literários de jornais quando acabou de escrever o nono livro, em 1970. “Tinham começado a surgir dificuldades na Guimarães”, lembra, e foi a própria editora Leonor da Cunha Leão quem encorajou a poetisa a aceitar o convite de Snu Abecassis para o publicar na Dom Quixote. Minha Senhora de Mim, Caderno de Poesia n.º 18, chegou às bancas em abril de 1971. E em menos de dois meses seria retirado de circulação pela PIDE.

Como Maria Teresa Horta, muitos poetas portugueses – de Ruy Bello a Alexandre O’Neill, de Herberto Helder a Natália Correia, de Sophia de Mello Breyner a António Ramos Rosa – encontraram nos Cadernos da Dom Quixote um dos seus lares. Foi um dos trabalhos mais meritórios da editora,“dar grande atenção aos autores portugueses, na ficção e na poesia”, lembra Nelson de Matos, que publicou o seu primeiro romance na Dom Quixote, cujo leme assumiria após a morte da fundadora em 1980.

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A dinamarquesa Snu Abecassis foi a fundadora da Publicações Dom Quixote

Para abrir Portugal

Snu Abecassis tinha 24 anos quando decidiu fundá-la, a 1 de abril de 1965, para “abrir Portugal”. Nascida na Dinamarca, tinha vivido em Estocolmo com a mãe e o padrasto, o editor sueco Tor Bonnier, numa mansão ao lado da Academia do Nobel, onde se brindava com Sartre e Strindberg. O mundo editorial era o seu aquário e, depois de se mudar para Lisboa com o marido Vasco Abecassis, Bonnier seria uma ponte essencial para o mundo lá fora.“Portugal não era um deserto editorial antes disso”, lembra Nelson de Matos,“havia muitas e prestigiadas editoras a resistir heroicamente ao fascismo”. É o caso da Ulisseia, da Estampa ou da Livros do Brasil, três entre pouco mais de uma dezena. A diferença é que Snu contava com o apoio de embaixadas e correspondentes estrangeiros, como Dennis Redmont, que a Associated Press enviou para Lisboa nesse ano, e lembra que “a PIDE andava muito em cima das outras, tinha até fechado a Europa-América por uns tempos”. A Publicações Dom Quixote apareceu e “conquistou rapidamente o seu espaço no meio das existentes, com um grafismo moderno e arejado, provocando constantemente a censura com coleções atrevidas e bem estruturadas”, conta Nelson de Matos.

As coleções da Publicações Dom Quixote eram “uma resistência ao fascismo”

Maria Teresa Horta

 

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Cervantes dá mote à festa

A agenda de celebrações da Leya inclui edições especiais, exposições permanentes e promoções. Em abril de 2016 as comemorações do meio século terminam com uma reedição de Os Lusíadas de Luís de Camões, um ano depois do tiro de partida: uma reedição de Dom Quixote de La Mancha, o ávido leitor de romances de cavalaria que saltou das páginas de Cervantes para batizar a editora cinquentenária. “Talvez Snu tenha considerado que a personagem seria uma boa imagem para o combate da editora”, arrisca Nelson de Matos. “Mas se havia alguma razão especial, desconheço-a.”

Combates quixotescos

As coleções foram sempre o forte da Publicações Dom Quixote, dos Cadernos de Poesia aos Dicionários temáticos, passando pelas tiras da Mafaldinha de Quino, inéditas em Portugal, e pela Ficção Universal, uma das coleções mais antigas (mas ainda publicada) que abrange alguns dos maiores nomes da literatura universal. Mas foram talvez os Cadernos Dom Quixote que melhor personificaram a estampa da editora, a figura do cavaleiro pronto para o combate imaginada por Cervantes e desenhada por Homero Amaro. A Guerra dos Seis Dias, em 1967, deu o mote ao primeiro Caderno da coleção de ensaios com ideias que o regime trancava lá fora – pequenos livros, cada um de sua cor, que durante décadas abordaram assuntos proibidos na imprensa, desde a contraceção feminina à crise na Igreja. Uma “fórmula bem conseguida de lançar novos temas para a discussão”, diz Nelson de Matos,“intervindo e provocando” uma sociedade onde os jornais eram sujeitos a censura prévia mas as editoras não.

“Era o grande mérito e objetivo dos Cadernos: fazer pensar e informar um país amordaçado.”

Tempestades literárias

Para celebrar os 50 anos da Publicações Dom Quixote, o grupo Leya, atual dono, edita, já a partir de setembro, os Novos Cadernos.

Em maio, também para celebrar a efeméride, chegou às bancas a reedição de Minha Senhora de Mim, que em 1971 quase levou a Dom Quixote a encerrar. “Gerou um burburinho desgraçado, foi apreendido à editora e em todas as livrarias”, lembra Maria Teresa Horta.

Snu, que já tinha sido chamada à PIDE por trazer o poeta soviético Yevgeny Yevtuchenko a Lisboa, foi abordada diretamente por Moreira Baptista, subsecretário de Estado de Marcello Caetano.“Se voltar a publicá-la, fechamos esta editora.” A dinamarquesa indagou:“Tudo o que ela escrever?”“Pode até ser a história da Carochinha. Se for assinada por Maria Teresa Horta, fechamos a editora.” Em represália, a poetisa e jornalista de A Capital lançaria Novas Cartas Portuguesas, escrito com as amigas Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, silenciado em Portugal mas um rastilho contra a censura no resto do mundo. “Porque não? Se uma mulher sozinha faz uma tempestade destas, três mais farão”, dissera Velho da Costa. E tinha razão. Por causa dele foram processadas, mas vários meses depois o juiz que ia ler-lhes a sentença ficou assustado com o magote de correspondentes estrangeiros à porta do tribunal. Era 1974 e a sessão foi adiada para maio. A revolução chegou um mês antes, também graças às coleções da Dom Quixote que “eram uma resistência ao fascismo”, recorda Maria Teresa Horta. “Iam julgar-me por mau comportamento mas não era mau comportamento. Era poesia.”

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