25 anos depois da queda do muro

155 KM DE HISTÓRIA

INÊS E LYDIA CIELSUK. Mãe e filha. Ambas Ossies, ou seja, nascidas na Alemanha Oriental antes da queda do Muro de Berlim. O que as diferencia? Liberdade de escolha. Lydia, 26 anos, estudou Comunicação e Jornalismo. A mãe, 52, queria ter estudado Finanças mas viu o pedido recusado quando o banco onde trabalhava na antiga República Democrática Alemã (RDA) não aceitou a candidatura. “Havia um sistema de distribuição de empregos: algumas pessoas tinham que trabalhar como cabeleireiras, outras como arquitetas e assim sucessivamente. Depois de começarmos a trabalhar, a empresa era responsável pelos nossos estudos. Uma amiga minha foi proibida de estudar Artes”, lembra. Mas, se a impotência e a repressão eram sentimentos difíceis de gerir relativamente à educação, Ines Ciesluk muda de opinião quando lembra a distribuição de riqueza: “Havia uma sensação de igualdade em termos salariais. Existiam algumas pessoas ricas mas a diferença entre ricos e pobres não era tão acentuada como acontece hoje. E não havia inveja porque não havia nada para cobiçar.” O sentimento comunitário é algo que Ines apreciava e tem cada vez mais dificuldade em encontrar. “As pessoas eram muito próximas, ajudávamo-nos mutuamente. Penso que a sensação de confiança está um pouco perdida”, lamenta.

Os alemães ainda discutem os efeitos de uma divisão de 20 anos

Do dia para a noite

muroberlim3A Cortina de Ferro instalou-se por fases. Depois do final da II Guerra Mundial, por via da Conferência de Potsdam, a Alemanha foi dividida em quatro setores ocupados pelas potências aliadas — Estados Unidos, Reino Unido, França e a então União Soviética. Berlim, com um estatuto especial, foi também demarcada em quatro zonas. Três anos depois, em 1948, o Bloqueio de Berlim imposto pelo líder soviético Josef Stalin desencadeou uma onda de emigração em direção ao Ocidente. Entre 1945 e 1961 quase 3 milhões de pessoas saíram da RDA, tornando-se urgente parar a emigração em massa. A solução chegou na madrugada de 13 de agosto de 1961 e os alemães foram apanhados de surpresa. Do dia para a noite, as forças armadas construíram uma barreira de arame farpado e o trânsito em direção a Berlim Ocidental fi cou bloqueado, tal como a vida da população. “As pessoas não têm uma verdadeira noção do que foi esta divisão. Havia alunos que moravam no lado oriental mas estudavam no lado ocidental e que,
simplesmente, deixaram de ir às aulas. Chumbaram os cursos! Muitos casais ficaram sem se ver durante anos porque viviam em casa dos pais e cada um ficou de um lado; cerca de 13 mil famílias ficaram divididas devido ao Muro”, conta Laura Chir. Laura, francesa de 28 anos, vive em Berlim há seis e trabalha como guia turística no Museu do Submundo, que conta a história dos túneis
de fuga subterrâneos da capital alemã. Conhece a cronologia dos acontecimentos de trás para a frente e é crítica em relação ao sistema da antiga RDA. “Além da tortura física nas prisões da Stasi, a polícia secreta da RDA, existia toda uma força psicológica como o isolamento durante meses, por exemplo. Li sobre pessoas que não conseguem estar em quartos com portas. As portas tiveram de ser todas retiradas”, conta, indignada Depois do arame farpado, outras etapas da construção do Muro sucedem-se até à quarta e última fase da Cortina de Ferro, implementada nos anos 70: uma parede de blocos, cimento e arame farpado com 155
quilómetros de extensão – 43 desses só em Berlim – vigiada 24 horas por dia, com 302 torres de observação, minas, holofotes e uma passagem que fi cou conhecida como o corredor da morte. Os soldados tinham ordem para disparar e impedir qualquer tentativa de fuga.

ESCAPAR PARA O OCIDENTE
Apesar de arriscarem a vida ou uma pena nas prisões da Stasi, muitos tentaram atravessar o muro e usaram todos os meios Possíveis — passaportes falsos, carros, barcos, pranchas de surf, sistema de esgotos, túneis subterrâneos, aviões improvisados, balões de ar quente. “Não era necessariamente porque queriam combater o sistema. As pessoas simplesmente queriam juntar-se
à família e amigos que tinham fi cado do outro lado, daí as tentativas de fuga serem tão frequentes”, explica Laura Stir. Em 1962, um grupo de idosos protagonizou uma das fugas mais famosas na Alemanha. O fugitivo mais jovem tinha 70 anos e o plano foi levado a cabo por um homem de 81 anos. O túnel tinha 1,75 metros porque os fugitivos queriam abandonar a RDA de cabeça erguida. Enquanto o muro se manteve de pé, mais de 5 mil fugas foram bem-sucedidas mas muitas outras nem chegaram a sair do papel ou foram intercetadas devido a traições familiares. “Dois homens começaram a escavar um túnel na parte ocidental para salvarem as
suas mulheres e fi lhos que tinham fi cado encurralados no lado oriental. Mas o irmão de uma das mulheres era informador da polícia secreta. Ao chegarem ao lado de lá tinham uma comitiva de militares à espera. Um deles morreu baleado e o outro passou dez anos nas prisões da Stasi. A mulher também foi presa e acabou por se divorciar dele”, narra Laura a um grupo de turistas
curiosos. A Procuradoria-Geral da República registou 270 casos de morte por tentativa de fuga. A organização não-governamental Treze de Agosto regista 1065 vítimas.

Berlim é novamente Berlim

Marthe Rissmann tem 25 anos, tantos quanto o aniversário da Queda do Muro. Nasceu no Ocidente — é Wessie — maPicture1s vive na parte oriental de Berlim desde que veio estudar para a capital. Das memórias contadas pela família lembra que o pai cobriu o evento em direto porque trabalhava numa estação de televisão. “Ele disse-me que estavam lá muitas pessoas a celebrar, muita emoção. Até hoje temos guardado um exemplar da revista Der Spiegel daquele mês. Li-a muitas vezes quando era mais nova”, revela. Os rumores de que o Muro ia cair começaram algumas semanas antes, mas a noite de 9 de novembro de 1989 foi a protagonista do episódio que, simbolicamente, pôs fim à Guerra Fria. O povo alemão, munido de martelos e picaretas, derrubou a Cortina de Ferro em direto para todo o mundo, perante o olhar impotente dos guardas da RDA. Ines recorda a primeira vez que atravessou o Muro, três meses depois da queda. “Recebemos dinheiro de boas-vindas — 100 marcos alemães, dos bons — e decidi comprar gel de duche. Mas existiam tantas marcas diferentes que não consegui escolher e, por isso, vim embora sem nenhum.” Ines assistiu à queda do Muro sentada no sofá. Segurava as duas filhas nos braços e, em direto, presenciou um momento histórico, esperado por muitos: “Mal podia acreditar no que estava a assistir. Ver aquele Muro cair foi uma imagem tão bizarra! Dissemos logo que era impossível e que o Muro seria reerguido na manhã seguinte!” Não foi. Mas continua lá ou, pelo menos, o resultado dele.

O muro invisível

O Muro de Berlim, ou o que resta dele, é paragem obrigatória para qualquer turista que se preze, mas os seus resquícios vão para além da East Side Gallery, a galeria ao ar livre onde se encontra a maior extensão do Muro. Anos de divisão física entre oriente e ocidente deixaram marcas nas gerações que o viram nascer e mesmo naquelas que vieram depois. Lydia Ciesluk foi sempre rotulada como a “alemã de Leste” e defende que o preconceito ainda existe. “Na televisão, o Ossie é sempre representado como estúpido e palerma. Quando trabalhei em Bona era a única Ossie no escritório e, se dizia que tinha dores de cabeça, ouvia logo: ‘Ai estes alemães de Leste não conseguem lidar com o nosso tempo!’” A mãe, Ines, concorda: “Uma vez nascida na Alemanha
Oriental, não vale a pena fugires do rótulo. Vais levá-lo para a campa.” Mas Lydia explica que a naturalidade dos alemães orientais em se prontificarem a ajudar tem-lhe valido muitos amigos e reações positivas. “Tinha uma colega que ia mudar de casa e eu ofereci-me para a ajudar. Ela achou estranho. Nem os pais vieram ajudá-la”, diz, incrédula. Ainda assim, Lydi, Ossie assumida, admite que há alemães de Leste que se reconhecem à distância. “Às vezes têm três cores no cabelo e um gosto um pouco estranho, até para mim que sou de lá. As fotos da minha infância são horríveis. Não havia cor na RDA, por isso a minha mãe vestia-nos com todas as cores que conseguia encontrar. O resultado era ridículo”, ri-se. Para Laura, as remanescências do Muro vão para além dos clichés. Por regra, é ela quem conduz a visita guiada aos túneis relativos ao Muro porque os colegas Ossies se recusam a fazê-lo. “Ainda existe um muro invisível. Ainda é um tabu. Foram muitos anos de propaganda a moldar-lhes o cérebro. Eles acham que a RDA é apresentada de uma forma demasiado negativa. Dizem que tinham uma boa vida antes de o Muro cair.”

Estradas de Ouromuroberlim
Em 1991 o governo alemão introduziu a “taxa de solidariedade” sobre o imposto de renda para ajudar a financiar o investimento público no antigo Leste comunista da Alemanha. Várias dezenas de milhões de euros têm sido investidos em infraestruturas, prestações de desemprego e benefícios sociais, e só no ano passado os alemães contribuíram com mais de 14 milhões de euros para a taxa de solidariedade. Mas a taxa não é um tema consensual na Alemanha. “No início fazia sentido mas penso que agora já não. Por exemplo, as autoestradas da Alemanha Oriental estão em bom estado. No Ocidente já não. Penso que seria mais importante investir esse dinheiro no país como um todo”, propõe Marthe. Fabian Timm, 27 anos, estudou política e, tal como Marthe, nasceu na Alemanha Ocidental mas considera a taxa necessária. “Se queres viver e trabalhar em conjunto numa sociedade, os padrões económicos têm de estar ao mesmo nível. A riqueza tem que ser distribuída de forma equilibrada.” Fabian explica que o Leste ainda está em desvantagem relativamente aos níveis económicos da Alemanha Ocidental e que os 40 anos de socialismo impediram um desenvolvimento equilibrado de acordo com as normas do Ocidente. Ines Ciesluk vive na cidade de Halle, perto de Leipzig. Vem a Berlim regularmente ver a filha. “Dizem que temos estradas de ouro mas grande parte do investimento foi usado para estradas que permitiram desenvolver negócios na Polónia e na República Checa, fazendo a economia do país avançar”, explica. Quando se pergunta se quer rumar a Ocidente, responde categoricamente: “De visita, claro!”

 

 

Sara Melo

Fotos © Berliner Unterwelten e.V.

P&R

Wladimir Kaminer; escritor

“o Muro já desapareceu da mentalidade das pessoas”

Nasceu em Moscovo em 1967. Aos 23 anos mudou-se para Berlim. Estávamos em 1990 e a Cortina de Ferro tinha caído meses antes. Na capital alemã encontrou a mudança e a inspiração que tanto desejava. E foi em alemão que foi escrevendo até se tornar um escritor-fenómeno, com vendas que chegam a quase 3 milhões de livros. O humor, a ironia e o charme ajudaram-no a consolidar o estatuto de líder de opinião na Alemanha. Hoje, aos 47 anos, o autor de obras como Russendisko e Viagem a Tralalá recorda a chegada a Berlim e revela de que maneira a cidade foi fundamental para encontrar as histórias que queria escrever.
 Começou a escrever depois de ser ter mudado para Berlim. Qual é o papel da cidade na sua escrita?

Quando cheguei a Berlim não comecei a escrever de imediato mas a minha mudança para cá aconteceu devido à queda do Muro. Quando era jovem era bastante crítico em relação ao sistema [na Rússia]. Vir para oriente significava vir para o ponto mais distante possível desse sistema. Nós pensávamos que, passando a fronteira, iríamos encontrar o paraíso. Por isso metemo-nos cá o mais depressa possível. Quando o Muro caiu isto ainda era a RDA (República Democrática Alemã) e eu não queria ficar na RDA. O meu
objetivo era aproveitar a queda do Muro e ir para a Dinamarca. Tinha amigos a viverem em Cristiania.

Que ambiente encontrou em Berlim quando chegou em 1990?vladimir

Cheguei a Berlim na noite em que a Alemanha se tinha sagrado campeã do mundo de futebol contra a Argentina. Não fazíamos ideia porque tínhamos estado no comboio. Os alemães celebravam nas ruas, cantavam, acenavam com bandeiras, ofereciam shots mas não percebíamos o que se passava. Pensámos que ainda estavam a celebrar a Queda do Muro!

Acha que o Muro ainda influencia a Alemanha de hoje em dia?
Quando o Muro caiu, a libertação ocorreu para ambos os lados. Muitos jovens evoluíram, o que proporcionou um campo criativo
não só para pessoas vindas de leste, como eu, mas para jovens ocidentais. Tenho a certeza que o Muro já desapareceu da  mentalidade das pessoas. Claro que os alemães da antiga  RDA têm as suas nostalgias. Mas quando a União Europeia foi criada trouxe com ela um sentimento de pertença a uma nova Alemanha, parte de uma conceção muito maior.

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O MURO DE BERLIM
Frederick Taylor
Tinta da China

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A QUEDA DO MURO
Jean Marc Gonin,
Olive Guez
Oceanos

viagemtralala

 

VIAGEM A TRALALÁ
Wladimir Kaminer
Tinta da China

 

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