1+2=3 não basta para fazer um livro infantil

 

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Como é que aparecem os contos e as fábulas que deixam as nossas crianças a imaginarem? O que vem primeiro: uma personagem, um lugar ou uma história? Cinco autores portugueses explicam como fazem

Por Sara Capelo

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A invenção

“A minha vida é inventar.” É uma declaração tão bela quanto inexplicável: três décadas depois do primeiro livro, Álvaro Magalhães continua sem saber como lhe surgem as ideias. “A génese é sempre misteriosa. Nunca conseguimos discernir como começamos”, diz. Mas tem muitas – tantas e guardadas num arquivo, que sabe que jamais as usará todas. Escreve-as num Moleskine e desenvolve perguntas em torno delas. “As respostas darão a história.” Quando já listou o suficiente, senta-se ao computador e escreve. David Machado também não consegue explicar de onde vêm as ideias. Pode ser a ler um livro, a falar com alguém, a olhar para uma parede em branco. Tudo o pode atrair e deixá-lo preso a uma situação, a uma personagem (um rapaz que tem medo do escuro e falta a luz em casa, por exemplo) que depois amadurece mentalmente durante semanas ou meses até que está pronto para se dedicar à escrita.

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Usar as memórias [as deles e a dos outros]

Os lugares da infância inspiraram António Mota a criar uma aldeia que repete livro após livro. Chama-se “Pedrinha do Sol” e é um nome que existia já muito antes de ter nascido em Baião, em 1957. Trata-se de um penedo que servia de relógio de sol aos pastores. Isabel Zambujal arrumava alguns documentos do tio, que morrera, quando encontrou cartas escritas por ele em criança. Leu-as. Havia queixas dos irmãos ou descrições dos dentes que abanavam. Emoldurou-as e ofereceu-as à tia, que chorou por resgatar aquelas memórias. Fez-se então um clique – José Jorge Letria, que escreve livros infantis desde 1979, chama-lhe “uma centelha, um fenómeno luminoso” – e a ideia para o conto surgiu na escritora: “Lembrei-me de que os adultos mais gostam são as memórias”. Criou então um Pai Natal que só oferece objetos que trazem memórias e escreveu O Pai Natal que Não Comia Queijo (Oficina do Livro, 2009).

3

O que as crianças querem?

David Machado, que também dá cursos sobre como escrever um livro infantil, chama-lhe “o jogo de ir à procura”. “Normalmente penso em mim quando era pequeno, no que sentia, em como me relacionava com os outros.” E a partir daí a história surge. Quando se estava a obrigar a escrever o seu primeiro conto infantil para participar no Prémio Branquinho da Fonseca, recordou-se de quando tinha dois anos e brincava com uma galinha imaginária. Pegou nesse conceito e escreveu sobre a solidão em A Noite dos Animais Inventados (Presença, 2006). Mas também já se dedicou a um pedido especial da filha que queria que lhe falasse sobre pássaros (Parece Um Pássaro, APCC, 2014).

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Imitar os mais novos

Álvaro Magalhães faz jogos de palavras e usa títulos imaginários para as suas histórias. “Aprendi com as crianças que, quando não dominam a linguagem, inventam palavras novas.” Quando queria jantar fora a filha pedia-lhe para ir ao “jantaurante”. O escritor começou a fazer o mesmo. Foi assim que surgiram os títulos para Hipopóptimos – Uma História de Amor (ASA, 2001) e O Brincador (ASA, 2009).

5

Uma lição a partir da História

José Jorge Letria define-se como um escritor e leitor compulsivo. Gosta de biografias, de História; escreve contos, teatro, romances. Um dia, cruzou-se com uma descrição do gato Moushi, que fez companhia a Anne Frank no anexo onde se escondeu dos nazis. Decidiu prolongar essa relação de amizade através do gato e escreveu Moushi, o Gato de Anne Frank (ASA, 2002). “É a imaginação a funcionar a partir de uma situação real”, descreve. Fez o mesmo quando colocou O Principezinho a resgatar o seu autor Antoine Saint-Exupéry do fundo do mar, onde o seu avião se despenhou durante a Segunda Guerra (Ambar). Mas mantém sempre as referências aos acontecimentos: “É possível dar a volta à história não perdendo a noção da realidade”, conclui.

6

O método

Talvez seja defeito profissional, mas a publicitária Isabel Zambujal tem sempre um bloco e canetas para apontar ideias. “Fico nervosa se não
os tenho”, confessa. E até lhe agrada ter de esperar por alguém além da hora marcada num café. “Escrevo em todo o lado. Só nunca escrevi na fila do supermercado.” No sossego da sua bucólica aldeia de Vilarelho (Baião), António Mota jamais conseguiria fazer o mesmo. Durante muito tempo tinha um passarinho que batia no vidro da janela enquanto escrevia – todas as tardes, entre as 14 horas e as 20 horas, sentado no escritório de casa ao computador e com os dicionários ao lado. Tirando esse som repetitivo do bico do pássaro (que entretanto desapareceu) e das teclas do computador (a que já se habituou), só ouve músicas não cantadas porque “as vozes interferem com a história”. Álvaro Magalhães também ouve música. Esta e os gatos são os seus companheiros: “Escrever é uma atividade muito solitária.”

 


Cada escritor é diferente. Alguns andam com cadernos ou tiram notas em folhas soltas. Outros têm uma ideia a olhar para uma parede e amadurecem-na durante meses até surgir a teia de personagens e cenários, que depois desenrolam num conto. Esta é a origem das histórias para alguns autores nacionais.

 

Álvaro Magalhães

A génese das ideias para um livro é sempre misteriosa. O escritor diz que nunca percebe bem como começa.


 

António Mota

Inspira-se muitas vezes nos lugares da infância para criar espaços e personagens nos seus livros.


 

David Machado

Não consegue explicar de onde vêm as ideias mas diz que, às vezes, vêm de livros ou de conversas com outras pessoas.


 

José Jorge letria

É um escritor viciado em leitura. Escreve romances, livros para crianças e até peças de teatro.


 

Isabel Zambujal

Nunca deixa fora da carteira o papel e a caneta onde aponta todas as ideias.

 

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