Orpheu: 100 anos depois, o legado perdura

numeros-revista-orpheu

Por carta

Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro trocaram correspondência durante anos e trabalharam intensamente nos primeiros três meses de 1915 para conseguirem publicar a primeira edição da revista.

 

 

Teve uma vida curta: foram publicados apenas dois números. mas a criação de Fernando Pessoa, Mário Sá-Carneiro e José de Almada Negreiros foi de importância capital para o movimento modernista português

A 25 de março de 1915 chegava às bancas, envolto em polémica, o primeiro número da revista Orpheu. Na noite da véspera tinham sido lidos trechos de “Ode Triunfal” nas imediações d’A Brasileira e os dez primeiros exemplares entregues na tipografia a Mário de Sá-Carneiro eram a prova de que a saída da revista para as bancas era uma realidade. Ainda nesse dia, foi recebida a primeira assinatura, da parte de Victorino Braga, e até às 7 horas do dia 26 já tinham sido vendidos 17 exemplares. Após uma troca de correspondência de anos entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, e de um trabalho intenso nos primeiros três meses de 1915, estava na rua aquela que é, até hoje, um marco na criação artística portuguesa.

Numa sociedade conservadora, a revista foi recebida com escândalo. Em nota publicada no livro Sensacionismo e Outros Ismos, Fernando Pessoa revela que, numa conversa com António Ferro, este lhe terá dado conta de opiniões adversas que catalogavam a Orpheu como “uma revista de malucos, o ‘órgão dos malucos’”. Passados alguns dias, porém, Pessoa mostra-se mais animado na carta que dirige ao poeta açoriano Côrtes-Rodrigues – que participaria no segundo número sob o nome de Violante de Cysneiros. “Foi um triunfo absoluto, especialmente com o reclame que a A Capital nos fez com uma tareia na 1.a página. (…) O escândalo maior tem sido causado pelo 16 do Sá-Carneiro e Ode Triunfal”, afirma.

A ideia de criar uma revista literária modernista era discutida por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro há algum tempo. Pela troca de correspondência adivinhavam-se já os futuros colaboradores da Orpheu. “São os nomes esperados: o Almada, o próprio António Ferro, Violante de Cisneyros – é a geração dos amigos, quase todos com 19, 20, 21 anos. São as pessoas que estão com Pessoa nas tertúlias nos cafés de Lisboa, no Martinho da Arcada e mais dois ou três cafés da Baixa”, afirma Jerónimo Pizarro, um dos principais investigadores pessoanos da atualidade e professor da Universidade de los Andes, na Colômbia.


Os vários artistas e colaboradores da Orpheu apostavam na performance e foi um texto publicado no diário A Capital que acabou por dar origem ao caso que politizou a revista.


A revista começa a tomar corpo depois de um encontro entre Luís de Montalvor – regressado do Brasil – e Fernando Pessoa no café Montanha, em janeiro de 1915. A ideia era criar uma revista modernista, importante, publicada em Portugal e no Brasil, e seria Montalvor – o diretor do primeiro número – a fazer a ligação com o Rio de Janeiro.

No número 1, com capa de José Pacheco, participam, além de Pessoa, Sá-Carneiro, Montalvor e Almada Negreiros, António Ferro como editor, Alfredo Pedro Guisado, Álvaro de Campos, Côrtes-Rodrigues e Ronald de Carvalho, poeta brasileiro e diretor da revista no Rio de Janeiro. Os autores convidavam “todos os Artistas cuja simpatia esteja com índole” da revista a enviarem colaborações.

Em pouco menos de três meses, as 83 páginas da revista ficaram prontas. Algumas decisões foram tomadas com certo improviso, como mostra uma conversa relatada por Fernando Pessoa e publicada em Sensacionismo e Outros Ismos. “Quando vi que o Orpheu era dado como propriedade de ‘Orpheu Lda’ observei a Sá-Carneiro que era preferível dizer ‘Empresa de Orpheu’ ou coisa parecida e não empregar uma designação de sociedade por quotas. ‘E se alguém se lembrar de nos pedir a certidão de registo no Tribunal do Commercio?’ ‘Você crê?’, disse o Sá-Carneiro. ‘Deixe-se assim, gosto tanto da palavra limitada.’ ‘Está bem’, respondi, ‘se o caso é esse vá. Mas olhe lá, que serviço é este de o António Ferro figurar como editor? Elle não pode ser editor porque é menor.’ ‘Ah, não sabia, mas assim tem muito mais piada! E o Sá-Carneiro ficou contentíssimo com a nova ilegalidade.’ ‘E o Ferro não se importa com isso?’, perguntei. ‘O Ferro, então você julga que eu consultei o Ferro?’”

orpheu-ilustracao

Ousar ousar

A revista Orpheu surge num momento de agitação política e social, durante os primeiros anos da República em Portugal e com a Europa em guerra. “Aparece num período de intensa criatividade e produção literária portuguesa e de uma grande abertura às novas estéticas europeias, nomeadamente o futurismo de Marinetti. Inaugura uma nova fase da história da poesia portuguesa e é uma concretização das ideias e teorias de Pessoa e de Mário de Sá-Carneiro, em cuja correspondência está parte original do modernismo português”, afirma Dionísio Vila Maior, investigador do CLEPUL. O académico, que estuda o modernismo, salienta a importância da vivência internacional de alguns dos membros da Orpheu – Pessoa estudara na África do Sul, Sá-Carneiro estava em Paris bem como Santa-Rita Pintor, que participa no segundo número, e Amadeo de Souza-Cardoso, cujos trabalhos estavam anunciados para o número 3 da revista. “Os jovens que deram origem à revista Orpheu estão integrados numa época de grande mudança, num contexto de uma nova consciência onde se promovia o direito à exceção, à diferença”, refere.

Além de Marinetti, Dionísio Vila Maior destaca ainda a obra de Picasso Les Demoiselles d’Avignon, que dá início ao cubismo ao apresentar uma fragmentação das perspetivas. “É um olhar pluridiscursivo e esta ideia da pluridiscursividade e da fragmentação tem muito a ver com a heteronomia de Fernando Pessoa, com o intersecionismo de Fernando Pessoa espelhado em ‘Chuva Oblíqua’, publicado no número 2 da Orpheu.”

documentos-orpheu

Documentos

Jerónimo Pizarro, um dos maiores especialistas em Fernando Pessoa, explica e guarda todos os documentos referentes ao
poeta português. Nos manuscritos há excertos que ajudam a contar a história da aventura Orpheu.

O objetivo deste grupo de artistas era, na expressão de Mário de Sá-Carneiro, “escandalizar o ‘lepidópedro burguês’”. Com efeito, os leitores, habituados à poesia muito ornamentada do século XIX, recusaram os textos inovadores, tanto ao nível da forma como da linguagem e dos temas – em “Ode Triunfal”, com versos sem estrutura melódica, são abordados temas como as máquinas e os motores.

“Quando aparece a revista Orpheu muitos dos seus críticos são psiquiatras, praticamente não há críticos literários”, diz Jerónimo Pizarro.

Com a revista acusada de ser uma “companhia de doidos”, Fernando Pessoa reage e, para o número 2, convida Ângelo de Lima, poeta internado há anos no Hospital Miguel Bombarda. “Foi de uma elegância e de uma paródia incrível ir procurar um doido a sério… Se fossem acusados de ser doidos, ao menos teriam um doido a valer”, diz Jerónimo Pizarro.

O Caso Afonso Costa

O número 2 da revista é ainda mais acutilante e eclético. Além de poesia, prosa e teatro, inclui também quatro hors texte de Santa-Rita Pintor e obras tão importantes como “Ode Marítima” ou “Chuva Oblíqua”.

“Uma coisa muito importante na época, e que Fernando Pessoa percebeu bem, é a ligação das diferentes artes. Ser interartística é algo que identifica a revista Orpheu”, afirma Jerónimo Pizarro para quem a presença de Álvaro de Campos é o verdadeiro fator diferenciador da revista.

Os vários artistas da Orpheu também apostavam na performance. E foi um texto publicado no diário A Capital, a propósito de rumores de um novo espetáculo de Orpheu, que acabou por dar origem ao caso que politizou a revista. Ao que se dizia, “A Bebedeira” seria um “drama dinâmico” representado apenas por pernas – humanas, de cadeiras e de mesas – já que o pano apenas subiria até à altura dos joelhos dos atores. A Capital compara os artistas de Orpheu a bobos da corte, cujo principal objetivo é “irritar o burguesismo artístico” e que se fale deles. Fernando Pessoa fica furioso e reage, através de Álvaro de Campos, com uma carta na qual injuria os jornalistas e o ministro Afonso Costa dias antes. Desta feita, os restantes artistas da Orpheu demarcam-se da posição de Pessoa.

António Ferro e Alfredo Guisado saem da revista. Entretanto, Mário de Sá-Carneiro, cujo pai custeava a revista, regressa a Paris. E é sobre Fernando Pessoa que acaba por recair todo o trabalho. Mas são sobretudo os motivos económicos que levam ao fim da Orpheu, porque o pai de Sá-Carneiro deixa de financiar o projeto. Mesmo assim, o número 3 ainda é trabalhado e, em outubro de 1917, chega a ser impresso um conjunto de provas.

Legado

Apesar da sua relevância para a história da cultura portuguesa, na altura em que foi publicada não foi possível ter a perceção da importância da Orpheu. “O legado de Pessoa, de Almada, do Mário de Sá-Carneiro, daqueles homens que, como dizia Jacinto Prado Coelho, ousaram ousar, é enorme. Muitos escritores hoje poderão dizer que devem alguma da sua visão e formação literária e artística a estes jovens que marcaram definitivamente o século XX e ainda estão a marcar”, diz Dionísio Vila Maior.

Para a geração de Orpheu, finda a revista seguiram-se outros projetos. Em 1916 Almada Negreiros lança o seu Manifesto Anti-Dantas, reagindo às críticas feitas à Orpheu, e um ano depois sai a revista Portugal Futurista, suspensa de imediato. A ditadura sidonista marcava o fim da aventura dos primeiros futuristas portugueses mas o seu legado perdura 100 anos depois.

Texto de Susana Torrão
Imagens: Biblioteca Nacional e Jerónimo Pizarro

Gostou? Partilhe este artigo: