100 anos da I Guerra Mundial

Quando, em 28 de junho de 1914, o assassinato do arquiduque Fernando da Áustria, em Sarajevo, anunciava o início de uma guerra para a qual as grandes potências se preparavam há muito, esperava-se um confronto curto e regional. Mas os avanços tecnológicos e as alianças forjadas ao longo de um século trocaram as voltas aos dirigentes políticos. O primeiro conflito bélico à escala mundial duraria 52 meses e deixaria um rasto de destruição que levou anos a apagar.

Quando, a 28 de Junho de 1914, o jovem estudante bósnio Gravilo Princip, da organização nacionalista Mão Negra, assassina o arquiduque Fernando da Áustria e a mulher, estava dado o pretexto para que o império Austro-Húngaro abrisse hostilidades contra a Sérvia. Viena envia um ultimato ao governo sérvio que, consciente da sua inferioridade, cede em quase tudo.
Em vão. A 28 de julho a Sérvia é invadida. Seguem-se a Bélgica, o Luxemburgo e a França e o ataque da Rússia à Alemanha.
A Europa divide-se. De um lado o Império Austro-Húngaro, a Alemanha e a Turquia. Do outro, a Sérvia, a França, a Inglaterra, a Rússia e a Bélgica. Mais tarde juntar-se-iam aos Aliados o Japão e a Itália e, em 1917, os Estados Unidos. No final do verão de 1914 o conflito já alastrara a África e ao Pacífico, ganhando uma dimensão global.

Uma guerra anunciada

Há vários anos que a Europa se preparava para a guerra. Assistia-se a uma cada vez maior militarização alemã e a uma corrida às armas por parte da Inglaterra – não foi por acaso que, no início do ano, Londres aprovou o maior orçamento de sempre para a Marinha.
Em causa estava o chamado “concerto europeu”, criado no início do século xix e assente em três princípios implícitos. Era do interesse geral que nenhum país europeu tivesse força para dominar os restantes; que não se criassem blocos antagónicos; aceitava-se que a Inglaterra era o único país com funções à escala planetária.
Quando a Alemanha subverte esta ordem, fica claro para Londres que a guerra devia começar antes que a Alemanha tivesse uma armada realmente poderosa.
Numa jogada de antecipação, a Inglaterra aproxima-se da França e, mais tarde, do Império Russo, formando a chamada “Tripla Entente”.

O mundo num impasse bélico
Depois das primeiras ofensivas, em 1914, e do rápido progresso no terreno das forças alemãs na frente ocidental, em 1915, a guerra tinha entrado numa espécie de impasse.
Da tradicional “guerra de movimento” tinha-se passado a nova “guerra de posições”, com os homens “enterrados nas trincheiras”.
Para o historiador Luís Alves da Fraga, a entrada em cena da metralhadora foi um dos fatores na base da mudança. “A metralhadora era altamente eficaz contra os cavalos que, até à data, eram o elemento que permitia o movimento das forças”. Com esta “guerra enterrada” vão surgir novas formas de ataque como o recurso ao gás mostarda, uma das formas de combate mais tristemente célebre da I Guerra Mundial.
Travada entre julho e novembro de 1916, a batalha do Somme, iniciada pelos aliados e considerada uma das principais batalhas da I Guerra, tinha o objetivo de romper as linhas alemãs estacionadas na região do rio Somme, em França. Mas cinco meses depois o número de mortos e feridos atingia os 1,2 milhões para apenas um ganho de 300 quilómetros quadrados para as forças aliadas. Enquanto a França e a Bélgica eram arrasadas, em Inglaterra o regresso de feridos e estropiados fazia baixar a moral. A economia dos países beligerantes e dos neutrais, ressentia-se. O apoio à guerra caía a pique por toda a Europa.

Saída do império Russo e entrada dos EUA
O degradar da situação no Império Russo conduziu, em 1917, à Revolução Bolchevique. O país entrou numa guerra civil e as convulsões desses anos levaram a que a Rússia abandonasse o conflito. Com a saída dos russos, os alemães desenvolvem planos para atacar os navios que viessem abastecer as forças inglesas. Até então os EUA tinham mantido uma posição de “neutralidade” mas abasteciam as forças aliadas.
Quando os submarinos alemães atacam vasos mercantes norte-americanos, os EUA declaram guerra à Alemanha, a 16 de abril de 1917. A entrada dos EUA na guerra desequilibra as forças e dá novo ritmo ao conflito. Estão em cena mais homens, mais carros militares e aviões.
Em março de 1918 os alemães lançam a chamada Ofensiva da Primavera. Em agosto os Aliados contra-atacam e recuperam os territórios perdidos e a Alemanha acaba por capitular. O Armistício é assinado no dia 11 de novembro de 1918. Em junho do ano seguinte, o Tratado de Versalhes, forçaria a Alemanha a pesadas reparações de guerra e à anexação de parte do seu território.
França e Bélgica estavam exangues e o Reino Unido tinha perdido toda uma geração de jovens. Os EUA assumiam-se como a nova potência mundial.

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Portugal vai à guerra
Visto à distância de um século, é fácil dizer que a participação de Portugal na I Guerra Mundial tinha tudo para correr mal. Há 100 anos, a indústria incipiente, a ausência de recursos naturais e uma rede ferroviária básica estavam longe de colocar Portugal no grupo das grandes potências europeias. O país era atrasado e iletrado (em 1910 a taxa de analfabetismo era de 75,1%) e dependente de Inglaterra a nível económico. Acreditava-se que as colónias em África resolveriam o problema da falta de recursos. Empobrecido, com um novo regime ainda frágil e uma necessidade imperiosa de se afirmar, só restava um caminho ao país: entrar na I Grande Guerra.
Temia-se ainda que a Espanha desencadeasse manobras diplomáticas para criar um ambiente propício a uma intervenção militar contra o regime republicano no caso de uma vitória alemã. Mesmo com uma vitória aliada, o risco de perder a soberania das colónias não estava afastado: o Congo Belga, que faz fronteira com Angola, fora invadido pelos alemães e havia a hipótese de que parte ou a totalidade de Angola passasse para as mãos dos belgas como compensação.
Apesar da oposição inicial de Afonso Costa, a pedido de Inglaterra, são apreendidos, no Porto de Lisboa, 35 vasos alemães no final de fevereiro de 1916 e a Alemanha declara guerra a Portugal. Em Tancos é criada uma divisão de instrução para preparar as tropas. Mas as tropas herdadas da monarquia não estavam preparadas para a guerra. Oficiais e sargentos partiam para uma guerra que lhes dizia pouco.
Entretanto, em Portugal os alimentos importados da Europa escasseavam. O mercado negro prosperava e o descontentamento popular aumentava. Dá-se o golpe militar de Sidónio Pais e o país entra em ditadura. Na frente, as tropas são deixadas ao Deus dará. Para aumentar a desmoralização geral, a gripe espanhola grassa pelo país, ceifando dezenas de milhar de vidas.
A derrota na Batalha de La Lys vai fazer com que os ingleses coloquem o exército português na retaguarda. Cumpre-se o objetivo de manter a soberania nas colónias mas a um preço elevado e numa sociedade em convulsão.
No fim da guerra surge em Portugal uma classe de “novos pobres”. “Antes da guerra, uma das principais fontes de rendimento da classe média remediada eram os bilhetes de empréstimo do Tesouro.
Depois, com a subida da inflação que, em 1920, era mil e tal por cento superior à de 1914, esses títulos deixam de ter valor e as famílias veem-se sem nada”, recorda Alves da Fraga.
Ao mesmo tempo surge uma nova classe média que irá apoiar a aparente estabilidade trazida no pós-28 de maio. Em 1926 a taxa de analfabetismo tinha descido para os 67,8% mas o número absoluto de analfabetos crescera. “O projeto educativo da República era ambicioso mas não havia dinheiro para o concretizar”. A classe operária também tinha visto as suas aspirações defraudadas, passando a ter uma relação conflituosa com o regime republicano para o qual a guerra acabou por ser a estocada final.
Mesmo assim, nas cidades o evoluir do século vai trazendo as suas novidades. Nos anos 20, Lisboa vê abrir a sua primeira sala de cinema, o Tivoli. Como resume Nuno Severiano Teixeira no artigo da Belle Époque à era da Jazzband, publicado na coleção Portugal Contemporâneo: “O fim da guerra trouxe ao país euforia, desilusão e os anos loucos. Alfredo da Silva enriquecia, Alves dos Reis, génio financeiro e burlão, acabava ingratamente no Limoeiro. Gago Coutinho e Sacadura Cabral atravessavam o Atlântico num hidroavião. As revoluções continuavam no Rossio, as compras na Baixa e o charme no Chiado. Tudo com maior pressa de viver”.

Ser mulher em tempo de guerra
“A I Guerra acaba por atuar como uma forma de emancipação, pois a falta de recursos humanos leva a uma seleção sem diferença de género. As mulheres, tal como os idosos e as crianças, passam a ser elegíveis para alguns trabalhos e depois, infelizmente, descartáveis”, recorda a investigadora Isabel Lousada. Desde o início do século, e com a implantação da república, as mulheres já vinham a conquistar direitos.
Durante a guerra destacam-se nomes como o da escritora Ana de Castro Osório ou da médica Adelaide Cabete. “Será Adelaide Cabete quem, em 1914, irá fundar o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.
Ana de Castro Osório está ligada à Cruzada das Mulheres Portuguesas na qual participam Elvira Duarte Machado, Ester Norton de Matos ou Alzira Costa, que depois irão criar o Instituto Militar de Arroios para a Reeducação dos Mutilados de Guerra”, refere a historiadora Alice Samara.
A laicização de profissões como a enfermagem vem trazer novas perspetivas profissionais às mulheres. Fora da área da saúde, no pós-guerra as mulheres passam a trabalhar nos telexes e instituem-se novas profissões como a de ama, passam a estar nos sindicatos e frequentam cursos dos centros escolares da república. Com o fim da guerra “cortam-se os cabelos, o vestuário
muda e há uma mudança na forma de lidar com o corpo. Mas isto dentro de uma pequena elite urbana, que tem o seu quê de transgressivo”, diz Alice Samara.
Boa parte destas conquistas sofre um revés depois do 28 de maio de 1926. O divórcio deixa de ser permitido, a mulher volta a ter um papel mais tradicional e, mais tarde, o próprio Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas é encerrado por Salazar.

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